Apóstolo Boyd K. Packer Falece

boyd packer
O presidente do Quórum dos Doze Apóstolos e primeiro na linha de sucessão apostólica de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Boyd K. Packer, faleceu hoje aos 90 anos de idade.

Com mais de quatro décadas como apóstolo, Elder Packer tinha um dos rostos mais conhecidos entre as Autoridades Gerais. Ele era o único, entre os atuais membros dos 12, cuja antiguidade permitiu ter participado, como apóstolo, da modificação da prática SUD de excluir os negros do sacerdócio.

Procurando dar respostas a temas que a segunda metade do século 20 e a década e meia do 21 trouxeram de maneira mais forte, Packer foi o autor dos discursos mais polêmicos dos últimos anos, o que lhe trouxe fieis admiradores e ferrenhos críticos.

Seguindo a linha de importantes figuras do mormonismo do século passado como Fielding Smith e Bruce McConkie, Packer se destacou como um daqueles que tiveram dificuldade em interagir com as transformações ocorridas no mundo do pós-guerra – algo que respingava em seus discursos, muitos dos quais são ótimas fontes para entendermos o que se passava pela cabeça da liderança mórmon frente aos desafios da contemporaneidade.

Sobre o que ameaçava a Igreja, Packer enumerou gays, feministas e intelectuais, dando o embasamento teórico para a inquisição responsável pelas sucessivas excomunhões dos Anos 90, reaberta nos últimos dois anos. Com uma visão utilitarista da história da Igreja, alertou que “algumas verdades não são úteis”, implicitamente ensinando que se deve omitir alguns pontos por não promoverem a fé.

Muitos de seus sermões fizeram história, viraram famosos filmes mórmons, entraram para os manuais. O apóstolo popularizou a tática de se cantar um hino para afastar maus pensamentos e ensinou sobre a existência da “Ordem das coisas faladas, mas não escritas”.

Foi ele quem mais abertamente falou sobre temas relacionados à sexualidade. Condenou a masturbação (ainda que considerasse coisa somente de rapazes), e tacitamente aprovou a violência contra homossexuais em um determinado caso.

Com o falecimento de Packer, o apóstolo Russel M. Nelson passa a ser o primeiro na linha sucessória para a Primeira Presidência. As posições deixadas por Boyd K. Packer e L. Tom Perry serão ocupadas por novos apóstolos a serem anunciados na Conferência Geral de outubro.

Poligamia: próxima fronteira da igualdade?

Vicki, Nathan e Christine Collier

Vicki, Nathan e Christine Collier

Um dos votos contrários à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo na Suprema Corte dos EUA, o juiz John Roberts afirmou que os mesmos argumentos em favor de tais uniões poderiam ser usados para legalizar a poligamia. De acordo com ele,

Se um casal de pessoas do mesmo sexo tem o direito constitucional de casar porque seus filhos de outra forma “sofreriam o estigma de saberem que suas família são de alguma forma inferiores”, por que o mesmo raciocínio não se aplicaria a uma família de três ou mais pessoas criando filhos?

Afirmações similares sobre a suposta caixa de Pandora que o casamento gay abrirá podem ser encontradas sem dificuldade na internet. O debate que nos parece relevante aos estudiosos do mormonismo, porém, é se há de fato a possibilidade de a poligamia vir a ser descriminalizada ou legalizada.

Nesta semana, motivados pela nova legislação sobre igualdade de casamento, uma família mórmon fundamentalista no estado de Montana solicitou uma certidão de casamento civil para o marido e a segunda esposa. Continuar lendo

Super-herói?

Texto de Júlio César Costa

Acredite que nenhum de nós
Já nasceu com jeito pra super-herói

Essa frase vem da música mais famosa da cantora Jamily, Conquistando o Impossível, e como um converso ex-evangélico, a conhecia bem.  Nos dias atuais precisamos muito de bons exemplos e muitos vêm de missionários(as) retornados(as).

Mulher-Maravilha & SupermanEm muitos locais no Brasil onde há um pequeno ramo, onde o Presidente e muitos da liderança não serviram missão, o missionário que chega é tido como um herói. A frase de Paulo a Timóteo se torna literal: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”(II Timóteo 4:17) e com isso a liderança aposta todas as fichas e às vezes é chamado além de Líder de Missão do Ramo para outros chamados.

Bem… Não culpo nenhuma liderança por essa ideia que é um pouco errada. De fato muitos têm essa ideia de “heróis” por esperança de que o ramo um dia se torne ala ou por eles acharem que os jovens sabem mais do que eles.

Mas e com vocês? Foi assim quando voltaram de missão? E de fato, “nenhum de nós nasceu com jeito para super-herói.”

Templo à venda

FLDS Texas templo 1O estado do Texas está buscando compradores para a fazenda Yearning for Zion (Ansiando por Sião, em tradução livre), na remota cidade de Eldorado. Dentre os prédios da propriedade, encontra-se o mais importante já construído pela Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (FSUD): seu templo.

A origem da FSUD e maior parte dos seus membros estão na fronteira entre Utah e Arizona. Mas a FSUD havia decidido construir o templo em um local mais inacessível. Continuar lendo

O legado de Joseph e Hyrum

js_hsCompletaram-se, no último sábado, 171 anos do martírio de Joseph e Hyrum Smith, assassinados por milicianos que invadiram a cadeia de Carthage. Ao contrário do almejado, as mortes dos irmãos Smith não destruíram o mormonismo. No entanto, mudariam para sempre a história daquele jovem e radical movimento religioso. 

Assim como o próprio Joseph Smith desejava viver e liderar o êxodo mórmon, tampouco os membros da Igreja contavam com a morte repentina de seu Profeta e Patriarca.  A nova religião americana ficou dividida entre diferentes alternativas de sucessão.

Para mim, há muito que lamentar na morte abrupta de Joseph e Hyrum. Mas também celebro a coragem e persistência dos seus contemporâneos que levaram adiante o que consideravam ser o seu legado. Esse legado, obviamente, foi sendo reinterpretado, de forma que na maior denominação mórmon, tanto as escrituras, quanto as ordenanças e a hierarquia foram mudadas em maior ou menor grau.

Enquanto muitos ensinamentos de Joseph são desconhecidos dos membros da Igreja SUD, o ofício do Patriarca Hyrum (D&C 124:124) – que deveria continuar sempre entre seus descendentes – nem sequer existe mais na Igreja. Continuar lendo

Suprema Corte aprova casamento gay nos EUA

Image: Jewel Samad/AFP

Image: Jewel Samad/AFP

O casamento entre pessoas do mesmo sexo será legalizado em todos os 50 estados norte-americanos. Nesta sexta-feira (26/06), a Suprema Corte dos EUA, por cinco votos a quatro, reconheceu a legalidade do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. Com isso, todos os estados passarão a emitir certidões de casamento civil para casais homossexuais, bem como reconhecer uniões celebradas em outros estados do país.

Até a decisão de hoje, o casamento gay já estava legalizado em 37 estados. Em Utah, a legalização teve início em outubro de 2014, quando a Suprema Corte havia rejeitado apelações que buscavam proibir as uniões entre pessoas do mesmo sexo. Ainda no ano anterior, a Suprema Corte havia anulado o plebiscito de 2008 na Califórnia, onde a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos havia realizado uma campanha acirrada contra o casamento gay. Continuar lendo

Apoiadora da ordenação feminina perde recomendação do templo

KristyIntegrante da organização Ordain Women (Ordene as Mulheres, em tradução livre), Kristy Money recentemente teve sua recomendação para o templo confiscada. Segundo a psicóloga, seus líderes locais no estado americano da Georgia a haviam ameaçado com tal ação em março deste ano, caso não deixasse o Conselho Executivo do Ordain Women. A organização pede a ordenação de mulheres aos ofícios do sacerdócio na Igreja SUD. Em texto publicado no site da organização feminista, Kristy fala sobre sua decisão: Continuar lendo

Novo planejamento da reunião sacramental

Conselhos de ala ajudarão a planejar reuniões

sacrament-meeting-297011-gallery1A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias estará em breve implementando mudanças para suas reuniões sacramentais. A reunião sacramental deverá ser a primeira das três horas de reuniões dominicais, sempre que possível, e planejada com um mês de antecedência. A principal novidade é que seu planejamento não ficará restrito aos membros do bispado, mas contará com as sugestões do conselho da ala. Continuar lendo

Testemunhas especiais do nome de Cristo

Apóstolos são “testemunhas especiais de Cristo” ou “testemunhas especiais do nome de Cristo”? Qual a diferença entre as duas definições? Que implicações doutrinárias há nessa mudança de linguagem? Embora grandemente despercebida, a mudança na tradicional definição do papel dos doze apóstolos ocorreu em uma das publicações de maior tiragem de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o livro Princípios do Evangelho.

princípiosUm profeta, sob a direção do Senhor, dirige a Igreja. Esse profeta é também o Presidente da Igreja. Ele possui toda a autoridade necessária para dirigir o trabalho do Senhor na Terra (D&C 107:65, 91). Dois conselheiros ajudam o Presidente. Doze apóstolos, que são testemunhas especiais de Cristo, ensinam o evangelho em todas as partes do mundo.  Edição de 1995, p. 112.

principios-do-evangelhoUm profeta, sob a direção do Senhor, dirige a Igreja. Esse profeta é também o Presidente da Igreja. Ele possui toda a autoridade necessária para dirigir o trabalho do Senhor na Terra (D&C 107:65, 91). Dois conselheiros ajudam o Presidente. Doze apóstolos, que são testemunhas especiais do nome de Cristo, ensinam o evangelho e governam os assuntos da Igreja em todas as partes do mundo.  Edição de 2009, p. 100.

Lição sobre linhagem, 1970

A Primeira Presidência à época: presidente Joseph Fielding Smith e seus conselheiros President Harold B. Lee, e Eldon Tanner.

A Primeira Presidência à época: presidente Joseph Fielding Smith e seus conselheiros Harold B. Lee e Eldon Tanner.

Em dezembro de 1970, a Missão Brasil Norte de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias publicava para seus jovens missionários a mais recente versão de uma palestra a ser usada com potenciais membros brasileiros. Nela, após revisar conceitos sobre revelação, profetas e sacerdócio, falava-se sobre os negros não poderem receber o sacerdócio. Continuar lendo

Percepções de duas antropólogas sobre o mormonismo no Nordeste dos anos 70

Há quase quarenta anos, quando sequer tínhamos uma estaca no Nordeste, duas pesquisadoras, que mais tarde se tornariam acadêmicas de renome, viram o mormonismo como algo interessante para se estudar.

Sobre uma delas, já comentamos ano passado em um artigo que discorria sobre o impacto trazido pela política racial, que perdurou até 1978, no perfil socioeconômico dos conversos brasileiros: Nádia Fernanda Maia de Amorim, alagoana, professora da UFAL, autora de Mórmons em Alagoas: religião e conflitos raciais.

Nádia Amorim (esq.) e Fátima Quintas. (Imagens: Agência Alagoas, Unicap.)

Nádia Amorim (esq.) e Fátima Quintas. (Imagens: Agência Alagoas, Unicap.)

Antes desta, a hoje presidente da Academia Pernambucana de Letras, Maria de Fátima de Andrade Quintas, debruçou-se no estudo do grupo religioso que pouco tempo antes havia construído uma capela no bairro da Ilha do Leite, no Recife.

Do esforço da pesquisadora pernambucana surgiu Os mórmons em Pernambuco: uma sociedade fechada, obra que, ao lado do trabalho de Nádia Amorim, nos ajuda a compreender os primórdios do mormonismo nordestino e como a religião fundada por Joseph Smith foi percebida pela literatura acadêmica brasileira.

Fátima Quintas frequentou as reuniões da capela localizada na Rua das Ninfas, nº 30, Recife; à época, talvez a única capela construída em todo o Norte/Nordeste do país. A despeito de reconhecer o quase total desconhecimento da população brasileira sobre os mórmons, a pesquisadora já notava implicações sociais na penetração do mormonismo em solo pernambucano. Seu trabalho, embora tenha analisado os membros locais, foi muito voltado à apreensão das visões dos missionários de tempo integral que atuavam na época – eram seis no total, todos norte-americanos.

Nádia Amorim fez uma pesquisa mais longa. Atraída pela existência de um grupo religioso que promovia a segregação racial em plena Maceió dos anos 70, a autora se propôs a escrever sobre as afinidades entre as perspectivas da religião por ela analisada e a tradição estadunidense de segregação entre brancos e negros.

Porém, algo muito importante aconteceu: enquanto a alagoana desenvolvia seu trabalho, ela tomou conhecimento da mudança na política racial SUD. Sua investigação foi prolongada, e ela pôde observar a súbita expansão daquele pequeno grupo que, apesar de zeloso no proselitismo, caminhava a passos lentos por mais de uma década na capital de Alagoas. Continuar lendo

A cruz no mormonismo

Monumento no cemitério de Winter Quarters, Nebraska.

Monumento no cemitério de Winter Quarters, Nebraska.

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias não usa a cruz em seus prédios ou liturgia. O mesmo é verdade para a grande maioria de outras denominações mórmons. Isso não só gera questionamentos e incompreensões por parte de outros cristão, como é também pouco compreendido pelos próprios mórmons em geral. Continuar lendo

Professor é desobrigado da Escola Dominical por usar textos oficiais sobre negros

Brian Dawson foi desobrigado após utilizar textos do site e revista oficiais da Igreja

Em 09 de junho de 1978, Spencer Woolley Kimball anunciava o fim da longa exclusão de negros do sacerdócio e das cerimônias do templo mórmon. Após 37 anos dessa importante mudança, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias parece ainda não lidar apropriadamente com esse aspecto de sua história. Pelo menos, é o que ilustra uma recente polêmica local na Igreja em Honolulu, no estado americano do Havaí.

O casal Brian e Ezinne Dawson com seus filhos

O casal Brian e Ezinne Dawson com seus filhos

Questionado por seus alunos de 12 a 14 anos sobre o banimento dos negros antes de 1978, Brian Dawson decidiu apresentar à classe da Escola Dominical o conteúdo de Raça e Sacerdócio, ensaio publicado em inglês no site lds.org em dezembro de 2013 (e traduzido para o português cerca de um ano depois como As Etnias e o Sacerdócio). De acordo com a reportagem do jornal The Salt Lake Tribune, Dawson também utilizou artigos da revista oficial Ensign (publicação americana equivalente à Liahona) para falar dos pioneiros negros Elijah Abel, Green Flake e Jane Manning James, enfatizando que especialmente os futuros missionários deveriam entender essa história. Continuar lendo

Joseph Smith como o Espírito Santo

Joseph_Smith,_Jr._portrait_owned_by_Joseph_Smith_IIINa teologia desenvolvida por Joseph no período final de sua vida, o Espírito Santo é um deus integrante da Trindade que, diferentemente do Pai e o Filho, não possui um corpo físico. Explicando sobre essa diferença, Joseph Smith declarou:

O Pai tem um corpo de carne e ossos tão tangível como o do homem; o Filho também; mas o Espírito Santo não tem um corpo de carne e ossos, mas é um personagem de Espírito. Se assim não fora, o Espírito Santo não poderia habitar em nós. (Doutrina e Convênios 130:22)

A ideia de que tal membro da trindade estaria passando por uma vida mortal nesta terra durante a época de Joseph Smith foi sugerida por ele em um discurso em Nauvoo, segundo o relato do apóstolo Franklin D. Richards: Continuar lendo