Movimento Rastafari e os Mórmons 2-3

Jamaica e o Início do Movimento Rastafari

Descoberta pelos espanhóis na época de Cristovão Colombo, a Jamaica foi colônia espanhola até a segunda metade do século XVII, quando passou para mãos inglesas. Sob o domínio britânico, esse território caribenho se transformou num grande exportador de açúcar. Assim como no Brasil, houve um grande uso da mão de obra de escravos vindos da África no cultivo da cana de açucar. Essa importação de escravos foi tanta, que a população negra passou a predominar na ilha.

Ainda antes da chegada dos ingleses, escravos que conseguiam fugir formavam assentamentos independentes equivalentes aos nossos quilombos. Esses escravos refugiados eram os “Maroons”. Símbolos de resistência contra a dominação europeia, os maroons sempre estiveram presentes no imaginário dos jamaicanos, com significado especial para os descendentes dos escravos, uma vez que a abolição da escravatura, ocorrida na década de 1830, não resultou no fim do sofrimento do povo negro.

Em 1914, após viajar por diversas partes da América e passar dois anos em Londres, o jamaicano Marcus Mosiah Garvey formou a Associação Universal para o Desenvolvimento do Negro (UNIA) que, entre outras coisas, lutava pelo desenvolvimento da África e a união dos afrodescendentes espalhados pelo mundo – entendidos como africanos em diáspora – em uma nação livre naquele continente.

Reza a lenda que, inicialmente, a mãe de Garvey quis dar-lhe o nome do meio de Moses (Moisés), explicando profeticamente: eu espero que ele seja como Moisés e conduza este povo.[1]O pai de Marcus Garvey tinha seu mesmo nome; era descendente dos maroons e tinha muito orgulho desse fato.[2]

Marcus Garvey (1887-1940)

Garvey e seu dom peculiar de oratória, uma combinação de estilo bombástico e agitador heróico, despertou o fogo no nacionalismo negro que ainda não foi extinto (…) atraiu atenção principalmente porque ele colocou em frases poderosas os secretos pensamentos do mundo negro. Ele dizia aos seus ouvintes o que eles queriam ouvir – que a pele negra não era algo para se envergonhar, mas um símbolo glorioso de grandeza nacional.[3]

Criou-se um mito em torno do nobre jamaicano; diversas pessoas entenderam sua mensagem como vinda do alto. Para várias expressões religiosas populares, Garvey não era apenas um ativista político; e sim, um profeta. Um texto publicado em 1924 por Robert Athlyi Rogers , a Holy Piby, identificava Marcus Garvey como um apóstolo cuja missão seria redimir o povo negro.[4]

Uma tradição Rasta sustenta que, em seus discursos, Garvey mencionava sobre um rei negro que seria coroado e libertaria o povo. Marcus Garvey teria dito: Olhem para África, lá um rei negro será coroado, então a redenção africana estará próxima.[5]

Em novembro de 1930, Ras(príncipe) Tafari Makonnen foi coroado imperador da Etiópia com o título de Haile Salassie I. Sua forma completa dada pela Igreja Ortodoxa Etíope foi “Sua Majestade Imperial, Imperador Haile Selassie, Eleito de Deus, Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Leão Conquistador da Tribo de Judá”.


Haile Selassie I

De acordo com a tradição etíope, ele era o ducentésimo vigésimo quinto rei da Dinastia Salomônica. A coroação de Ras Tafari Makonnen foi divulgada internacionalmente; e muitos jamaicanos, ao saberem daquele evento, entenderam Ras Tafari , agora Haille Selassie I, como o cumprimento da profecia de Garvey. O etíope seria o rei escolhido por Deus para liderar as pessoas de origem africana de volta à terra de seus ancestrais; outros foram mais além, chegando a considerá-lo o próprio Deus em forma de homem; a segunda vinda de Jesus, identificando-o com uma profecia do livro do Apocalipse[6]. Surgiam os Rastafaris.

Um grande divulgador dessas ideias foi Leonard P. Howell que – baseado em um texto chamado Real Pergaminho da Supremacia Negra – escreveu A Chave Prometida, na qual lemos: Sua Majestade Ras Tafari é o cabeça de todo homem pois ele é o supremo Deus. [7]

A ideia de Garvey como o anunciador de Selassie transformou o jamaicano numa espécie de João Batista moderno. O próprio Garvey não acreditava na divindade de Selassie e chegava a fazer severas críticas ao imperador[8]; “assim como João teve dúvidas sobre a dinvidade de Jesus de Nazaré”, era o argumento usado para contornar o problema de um profeta descrente.[9]

Unidos pela crença em Selassie, as pessoas se juntavam para orar e discutir seus textos sagrados. Com o objetivo de melhor adequar a Bíblia a sua visão teológicas, era comum os élderes corrigirem o texto bíblico, pois acreditavam que a Bíblia havia sofrido mudanças pela “Babilônia”[10], termo este bastante usado pelos Rastas com múltiplos significados. De modo geral, usam o termo para se referir ao governo dos homens e suas instituições, que, segundo suas crenças, oprimem as pessoas e ferem as leis de Jah (Deus), devendo ser superadas.[11]

Aos poucos, comunidades iam se formando, ainda que frouxamente organizadas. Uma vez que existia certa liberdade de modo a cada líder interpretar os textos sagrados a sua maneira, ficava dificil manter a unificação doutrinária. Sob a liderança dos élderes escolhidos pelas comunidades , o movimento se mantinha e ganhava mais e mais adeptos tanto na Jamaica, como fora dela.

Nas primeiras duas décadas do movimento, a preocupação maior foi divulgar e estabelecer a crença na dinvidade de Haile Selassie. Passada essa fase, eles puderam se concentrar em uma questão mais prática – o retorno à África, também chamada “repatriação”.O tema da repatriação está associado a redescoberta da África feita nos corações dos adeptos da religião; o que serviu para dar aos Rastas um senso de identidade cultural e histórica.[12]

A Itália de Mussolini invadiu a Etiópia em 1935, estando em conflito com os etíopes até 1941. Em parte devido a isso, a “Babilônia” foi também chamada de Roma, uma exegese tanto baseada no livro de Apocalipse quanto na crença de que a Igreja Católica e seu líder, o papa, eram opositores de Selassie, uma vez que o lider católico era, segundo A Chave Prometida, Satanás na terra.[13]

Em apoio ao imperador da Etiópia, que estava em exílio em Londres durante a dominação italiana, foi criada a Federação Mundial Etiope; muitos rastas se filiaram a FME. Como forma de gratidão, Selassie, em 1848, concedeu 500 acres de suas terras particulares para que membros da FME pudessem migrar para África.[14] No mesmo ano em que se criava o estado de Israel, a Sião africana concedia terras para o retorno dos negros em diáspora, como vaticinava o já falecido Marcus Garvey.

A ideia da Etiópia-África como uma terra prometida e a grande migração de hindus para Jamaica contribuiram para adoção de práticas e crenças desses lugares. Assim como muitos hindus e africanos, eles deixam seus longos cabelos no estilo Dreadlocks, que lembra a juba de leão; o que faz uma conexão com sua pátria-mãe, a África. Fazem também isso como parte do voto do Nazireu do Velho Testamento.

Outra razão do grande apreço pela África é a crença de que a Etiópia fazia parte do Jardim do Éden. Uma vez que a Bíblia afirma que somos descendentes de Adão e Eva, teríamos todos uma ligação com Mama África, onde toda vida havia começado.

Para os Rastas, a ganja (maconha) é uma erva sagrada; inclusive, entre eles, é famosa uma lenda que diz ter sido encontrada maconha na sepultura de Salomão. A erva é usada com o objetivo de purificação em seus rituais religiosos. Tendo em vista o fato da ganja ser proibida em muitos países, usá-la também tem uma conotação de protesto contra as leis injustas da Babilônia[15].

Não apreciam apenas a Cannabis; os Rastasfaris tem grande apreço pelas plantas como fonte de cura; o objetivo é alcançar uma vida natural em perfeito equilíbrio e integração com as leis divinas e naturais, vivendo do que a Terra lhes proporciona, sendo um com ela e com Deus. Essa noção de unidade com Deus e os homens criou a expressão “Eu e Eu”, usado para substiuir “você e eu” ou “nós”; na intenção de fortalecer o conceito da união entre as pessoas em Jah e com Jah.

São rigorosos na alimentação, sendo esta composta por bastante verdura, proteína vegetal, grãos e frutas.[16] Muitos evitam carnes, leite e seus derivados; também não fazem uso de drogas químicas. Vários adeptos têm receio de usar medicamentos que não sejam naturais, pois acreditam que a indústria farmacêutica e os médicos são incapazes de curar; apenas Jah tem esse poder.

Entendiam a língua inglesa como parte das coisas impostas pelo colonialismo europeu; o que levou a modificarem este idioma, criando o Iyaric: dialeto onde termos do inglês foram modificado de maneira a ficar mais condizentes com suas crenças e soarem mais positivos, já que acreditam na existência do poder nos sons das palavras- é o principio da Palavra, Som e Poder.[17]

Devido às excentricidades de suas crenças e práticas, os Rastas sofreram perseguições da elite jamaicana. A comunidade de Howel, por exemplo, teve que formar uma milícia para proteger a área onde se reuniam. Esses guardas deixavam seus cabelos crescer como os guerreiros africanos da ordem Nyahbinghi, contribuindo para que os já comentados dreads fossem adotados pelos adeptos do movimento. Há rumores que na comunidade de Howel a poligamia foi praticada.[18]

Com o tempo, mais e mais elementos foram sendo incorporados à teologia de certas comunidades de modo a serem criadas diferentes ramos dentro do movimento. Os mais famosos desses ramos -também chamado Mansões rastafaris- são Bobo Shanti, Niyabinghi e Doze Tribos de Israel.

Na tradição Rastafari, além do dia da coroação de Tafari Makonnen -2 de novembro de 1930- um evento marcou a vida dos seus adeptos: a visita de Sua Majestade à Jamaica em 21 de abril de 1966. Ao som de tambores, milhares de pessoas compareceram ao aeroporto de kingstown para ver e entoar hinos a Deus, que a bordo de um avião da Ethiopian Airlines, vinha visitar o país. Muitas pessoas seguravam folhas de palmeira em uma alusão à entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. A multidão invadiu a pista, impossibilitando a descida do imperador.Líderes rastas conseguiram conter a multidão, e Selassie pôde cumprir sua agenda.[19]

Os élderes rastafaris afirmaram que, em uma reunião com o imperador, Sua Majestade dissera que os Rastas não deveriam emigrar para Sião até que libertassem a Jamaica. Um novo conceito surgiu: libertação antes da repatriação.[20] Embora muitas pessoas tenham migrado depois da visita de Selassie, o tão sonhado retorno físico à África passava de um evento iminente para algo a se concretizar somente em um futuro indeterminado; sendo o retorno espiritual, talvez, o mais enfatizado.

Como um cristão ortodoxo etíope, a visão do imperador provavelmente era diferente daqueles que o tinham como divino. Porém, uma concisa negação pública de Sua Majestade sobre a divindade que lhe era atribuída parece inexistir. No máximo encontramos pessoas que afirmam ter ele negado em particular. Esse silêncio, ou mesmo, uma ou outra alusão negativa de Selassie sobre sua divindade foi interpretada como a prática da virtude da humildade ensinada por Jesus: pois todo o que se exalta será humilhado; e todo o que se humilha será exaltado.[21]

Em 1974, Selassie seria deposto por uma junta militar pró-soviética, marcando o fim da Dinastia Salomônica. Um regime comunista seria instalado naquele pais. No ano seguinte, os jornais publicariam a morte do monarca. Muitos rastas não acreditaram naquilo; não podiam aceitar que a encarnação de Deus pudesse morrer. Élderes de várias correntes Rastafaris tentavam dar explicações no afã de contornar aquela situação. Para alguns, a morte era uma fabricação, uma mentira da Babilônia; [22] outros diziam ser a morte irrelevante, uma vez que Selassie era meramente uma personificação da divindade; que vive dentro de cada Rastafari. Assim, Selassie e sua consorte, a imperatriz Menen, permanecem como símbolos religiosos e políticos que inspiram os Rastas contra a sufocante opressão babilônica. Jah vive![23]

Aquele sentimento expresso no “ódio à raça branca” que o movimento carregava no seu início foi se arrefecendo , e à paz racial foi dado ênfase. Pessoas de várias nacionalidades e raças têm aderido à causa, a luta contra opressão e desigualdade continua. Contudo, no que tange à moral, talvez ainda persista a ideia da superioridade racial dos povos africanos, com o argumento da perda da humanidade que o homem branco teria tido ao promover guerras e a escravidão.[24]

O Rasta mais famoso de todos os tempos foi Bob Marley. Aliando qualidade musical à imagem de desafiador do sistema, o jamaicano ganhou uma legião de fãs e tornou possível que a mensagem Rastafari tivesse um alcance mundial. Apesar do reggae não ser restrito a cultura rastafariana, os Rastas influenciaram bastante nos primórdios do estilo. Muitos Rastafaris ainda hoje usam o reggae como instrumento de divulgação de sua fé.

Uma grande quantidade dos que se consideram Rastas não entendem o movimento como uma religião, mas como um estilo de vida que busca um maior contato com a natureza e faz resistência ao que é considerado injusto no mundo em que vivemos.É um erro reduzi-los aos Dreads, Reggae e a maconha.

Para os que se interessarem pelos Rastafaris, sugiro que não fiquem só na bibliografia e no texto deste babilônico, mas que busquem a visão dos próprios Rastas sobre sua história e crença. Uma boa introdução é o projeto Omega Nyahbinhghi, que pode ser visto aqui.

_

[1] Cronon, Edmund David. Black Moses: The Story of Marcus Garvey and the Universal Negro Improvement Association.1969. University of Wisconsin Press, p.5
[2]idem
[3]idem, p. 4
[4] O trecho da Holy Piby pode ser visto aqui
[5]Marcus Mosiah Garvey: A Estrela Preta. Eu & Eu Realidade Rasta.2010.Porto Alegre, p. 54
[6]Ap 5
[7] O trecho da Chave Prometida pode ser visto aqui
[8] RABELO, Danilo. Rastafari: identidade e hibridismo cultural na Jamaica, 1930-1981. 2006. Tese (Doutorado em História)-Universidade de Brasília, Brasília, 2006 p.195
[9] Aqui
[10] RABELO, Danilo. Rastafari: identidade e hibridismo cultural na Jamaica, 1930-1981. 2006. Tese (Doutorado em História)-Universidade de Brasília, Brasília, 2006 p. 358
[11] Edmonds, Ennis Barrington. Rastafari: From Outcasts to Culture Bearers. 2002. Oxford University Press, p. 41
[12] Idem, p. 55
[13]Aqui
[14] Site da Federação Mundial Etíope
[15] Erva Sagrada dos Rastas. Revista Eu & Eu Realidade Rasta, p. 11, janeiro de 2005.
[16]I-Tal-Alimentação Para O Corpo e o Espírito.Revista Eu & Eu Realidade Rasta, p. 11, março/abril de 2005.
[17]Ex: Overstanding”, no lugar de “understanding” para denotar um lugar mais elevado ao substituir “under” por “over”; Inity no lugar “unity”, demonstrando o padrão geral da troca do “you” por “I”.
[18] ] RABELO, Danilo. Rastafari: identidade e hibridismo cultural na Jamaica, 1930-1981. 2006. Tese (Doutorado em História)-Universidade de Brasília, Brasília, 2006. p 210
[19] Imagens da visita de Haile Selassie I à Jamaica.
[20] RABELO, Danilo. Rastafari: identidade e hibridismo cultural na Jamaica, 1930-1981. 2006. Tese (Doutorado em História)-Universidade de Brasília, Brasília, 2006 P. 260
[21]Mt 23:12
[22] A revista Eu & Eu Realidade Rasta de dezembro de 2011 traz um texto de um mestre yogi que afirma ter se encontrado com Selassie em 1982.
[23] Edmonds, Ennis Barrington. Rastafari: From Outcasts to Culture Bearers. 2002, Oxford University Press pag 55
[24] RABELO, Danilo. Rastafari: identidade e hibridismo cultural na Jamaica, 1930-1981. 2006. Tese (Doutorado em História)-Universidade de Brasília, Brasília, 2006 p. 373

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3 respostas para Movimento Rastafari e os Mórmons 2-3

  1. Ótimo artigo, Emanuel !

    Achei interessante as “semelhanças” entre o rastafarianismo e mormonismo. A semelhança que mais me chamou à atenção, foi o triste caso de superioridade racial, o mormonismo não consegui fugir disso, nos seus primórdios, os mórmons brancos se achavam superiores aos negros, expondo-os aos várias tipos de humilhação e injustiça.

    • Giovanni Israel Machado disse:

      Não só nos primórdios, quem conhece a história, sabe que isto perdurou por muitos anos, até 1978 pelo menos. Se há este tipo de sentimentos (superioridade racial) ainda hoje, que Deus tenha piedade dessa pessoa.

      • Emanuel Santana disse:

        Muito obrigado, Giovanni.

        Repare que neste texto nem mesmo mencionei o termo “mórmon”. Alguma comparação com o Mormonismo virá no próximo post. Abraços.

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