Glória a Deus; Paz na Terra

JohnMMacfarlaneHá alguns anos, enquanto cantava canções de Natal em um evento não-mórmon, sugeri que o grupo cantássemos “Lá na Judéia, Onde Cristo Nasceu.” Fui recebido com olhares em branco e perguntas: “Qual música?” “Nunca ouvi falar.” Acontece que eu estava tão imerso na cultura mórmon (em grande parte eu ainda estou imerso na cultura) que eu não sabia que “Lá na Judéia, Onde Cristo Nasceu” é um hino SUD, escrito por um autor de Utah no século 19 (de fato é o único hino de natal escrito por um membro da Igreja SUD), e é, portanto, desconhecido pela maioria dos grupos não-mórmons, apesar de sua doutrina ser suficiente universal para a maioria deles.

A história da composição dessa música é interessante, por isso vou resumi-la: seu autor, John Menzies Macfarlane, era um converso escocês que emigrou para Utah em 1852 e para a vila de Cedar City, Utah em 1853. Lá, ele fez de tudo um pouco, enquanto agricultura foi descrita como sua ocupação principal, ele também foi professor de escola, o primeiro agente postal para o vilarejo de Toquerville, foi o primeiro superintendente das escolas para o condado, e foi um topógrafo. E até estudou direito e foi eleito juiz de paz da condado[1].

Mas Macfarlane também era músico, e “ocupou-se zelosamente” como músico, para dizer o mínimo. Ele organizou um coro em Cedar City, fundou uma banda de metais na cidade e liderou os esforços para comprar um órgão para a capela de Cedar City. Os concertos de seus coros eram conhecidos em todo o sul de Utah nas décadas de 1860 e 1870 e os registros da época estão repletos de elogios para os concertos. Um concerto realizado em St. George em 1868 levou o Apóstolo Erastus Snow a pedir-lhe a deslocar-se para St. George—e assim ele fez[2].

Foi em St. George que Macfarlane compôs “Lá na Judéia, Onde Cristo Nasceu.” No outono de 1869, ele decidiu que seu coro precisava de um novo hino para a época de Natal, e pediu ao seu colaborador freqüente, Charles L. Walker, para escrever um texto, ao que Macfarlane pudesse compor a música. Walker escreveu a letra, mas Macfarlane lutou para escrever a música. Uma noite, a música finalmente chegou em um sonho, junto com as palavras. Ele acordou e gritou para a esposa: “Ann, Ann, eu tenho as palavras para uma canção, e eu acho que eu tenho a música também!”

As palavras eram, naturalmente, muito diferentes daquelas escritas por Walker, e Walker se recusou de assumir o crédito por elas, dizendo: “Estas palavras não são minhas, John. Eu nunca as vi antes. Estas são suas palavras. Você escreveu tanto as palavras como a música, e você deve assumir o crédito completo.”[3]

O primeiro verso do texto Macfarlane nos lembra de um determinado tempo e lugar:

Lá na Judéia, onde Cristo nasceu,
Os pastorzinhos ouviram do céu:

No inglês original tem um pouco mais, indicando que os pastores estavam nas planícies de Judéia (Longe daqui nas planícies da Judéia). Infelizmente, Macfarlane errou no cenário um pouco. Disseram-me que a geografia ao redor de Belém não contém planícies. Pastores nessa área pastavam seus rebanhos nas encostas rochosas. Macfarlane pode, penso eu, ser perdoado por este erro. Ele poderia até ter usado licença poética em sua formulação, pois, em inglês, duvido que haja maneira boa de descrever colinas na letra da canção.

O refrão escrito por Macfarlane vem de Lucas 2:14, a qual contem um poema de duas linhas inserido nessa versão da história de Natal. Na tradição ela é amplamente conhecido como o Cântico dos Anjos:

Glória a Deus nas alturas,
Paz na terra, boa vontade para com os homens.

Infelizmente, esse cântico é muitas vezes mal interpretado no texto do Versão King James. E em português, as várias versões João Ferreira de Almeida também diferem muito, dando mal interpretações. Aqui, “nas alturas” não se refere ao grau ou à quantidade de glória dada a Deus (como o inglês insinua), mas para onde está Deus, ou seja, nas alturas dos céus. E o grego original não fala de “boa vontade” que está sendo dada aos homens, mas de paz dado aos homens favorecidos de Deus, ou seja, aqueles em suas boas graças.

Felizmente, nenhuma dessas dificuldades de tradução causa problemas para nós hoje. Nós certamente queremos boa vontade para com os homens, mesmo se os anjos não disseram isso aos pastores. E ninguém vai argumentar que Deus não merece o mais alto grau de glória.

O texto escrito por Macfarlane continua:

Cantam os anjos no céu com amor,
Doce mensagem de paz e louvor,

Esta descrição da Cântico dos Anjos se encaixa bem, eu acho. A doação de glória a Deus aparece freqüentemente nas escrituras. Quando damos glória a Deus, damos-lhe o crédito para o bem. Na verdade, se você pesquisar pelo termo “Glória a Deus” nos discursos recentes da conferência geral o Cântico dos Anjos não aparece. Em vez disso aparece a história de como Cristo cura dez leprosos em Lucas 17, em que apenas um dos leprosos, um samaritano , voltou e agradeceu Cristo. Esta história é sempre contada como um exemplo de gratidão—ou seja, o ato de dar glória a Deus.

Mas em outras partes da revelação moderna, temos uma compreensão mais ampla dessa ideia de glória. Doutrina e Convênios define a glória de Deus como “inteligência, ou, em outras palavras, luz e verdade[4].” E no livro de Moisés, o Senhor vai mais além disso, dizendo que “esta é minha obra e minha glória: Levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem[5]“.

Além da glória, os anjos também desejam a paz. A paz de que eles falam não é a falta de guerra que tantas vezes vem à mente hoje. Os anjos falavam de uma paz interior. A palavra hebraica para a paz, Shalom, tem suas raízes em um conceito de integralidade. Devemos pensar na paz, portanto, como estar contente com nós mesmos, como sendo integrado com nós mesmos em vez de dividido, como ter ausência de qualquer conflito interno. Esta paz vem de uma vida digna, de arrepender-se de, e, assim fazendo, resolver-se dos seus erros, dos seus pecados.

O terceiro verso do hino de Macfarlane (quarto em português) nos introduz dentro do Cântico dos Anjos:

Nós, com os anjos a rejubilar,
Hoje, queremos, em coro, cantar,

Quando entendemos o texto do Cântico dos Anjos, não devemos esquecer o contexto da canção. Os anjos apareceram no nascimento de uma criança. Se o seu “trabalho e glória” é a “imortalidade e vida eterna do homem”, em seguida, o nascimento de uma criança representa a esperança de realizar essa glória. Em termos mórmons, cada criança é um aumento para nós, recebemos um “acréscimo” e nossa alegria é mais completa. Que pai não entende que enquanto uma família de uma ou duas pessoas é perfeitamente feliz, o aumento de mais uma paradoxalmente faz a família ainda mais perfeita. No meu caso, o nascimento de cada criança não queria dizer que a minha família não era boa, que a nossa alegria não era perfeita, mas de alguma forma cada nascimento nos deu mais alegria e nos tornou ainda mais perfeitos.

É claro que o contexto do Cântico dos Anjos não era apenas o do nascimento de uma criança, mas era o nascimento de uma criança específica, o salvador do mundo. Que aumento para a glória de Deus! Que acréscimo! Esta criança não era apenas um aumento a Deus, mas a chave para o plano de salvação, a vida sem a qual tudo seria um fracasso. Não é mera gratidão que leva o próprio Senhor, depois de descrever seu sofrimento e de desejar não ter de beber do cálice amargo, para dizer:

Todavia, glória seja para o Pai, e eu bebi e terminei meus preparativos para os filhos de homens[6].

O último verso do hino Macfarlane (terceiro em português) prevê um tempo final, quando todos os homens vão cantar essa glória:

Tempo virá quando em todo lugar,
Homens irão reunidos cantar,

As escrituras também profetizam deste tempo. Eles dizem que, antes do julgamento “todo joelho se dobrará e toda língua confessará” que Jesus é o Cristo, que a glória de Deus foi, está sendo e será cumprida.

O hino de Macfarlane e o Cântico dos Anjos nos lembram desta confissão, a confissão de que os verdadeiros cristãos todos compartilhamos. Eles nos convidam a participar. Devemos e queremos dar glória a Deus, a se curvar nosso joelho e confessar a Cristo, servindo como exemplos e testemunhas de que a glória.

Por isso, vamos sair hoje, e todos os dias, talvez especialmente nesta época de Natal, cantando Seus louvores, dando glória a Deus, cantando daqueles “planícies” da Judéia e no momento poderoso que eles representam.

Notas

  1. Parshall, Ardis. “John Menzies Macfarlane: Far, Far Away and Not So Long Ago” Keepapitchin, 14 December 2008.
  2. Parshall, Ardis. “John Menzies Macfarlane: Far, Far Away and Not So Long Ago” Keepapitchin, 14 December 2008.
  3. Davidson, Karen Lynn. “Far Far Away on Judea’s Plains” in Our Latter-day Hymns: The Stories and the Messages. (Salt Lake City, Utah. Deseret Book, 1988), pp. 223-224. Davidson cites Macfarlane, Lloyd Wayland. Yours sincerely, John M. Macfarlane. Privately printed, 1980.
  4. D&C 93:36
  5. Moses 1:39
  6. D&C 19:19
About these ads

Um comentário sobre “Glória a Deus; Paz na Terra

Deixe um comentário abaixo:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s