Movimento Rastafari e os Mórmons 3-3

Conhecer um pouco a história e as doutrinas de nossos irmãos Rastafaris me fez pensar em alguns eventos e curiosidades da saga Mórmon. Ambos os movimentos tiveram início no continente americano e conseguiram sintetizar em uma expressão religiosa os sentimentos e expectativas das pessoas de suas respectivas áreas de atuação inicial. A diferença principal entre eles está ligado ao público alvo, seus anseios e o significado que o continente americano tinha para os dois movimentos.

Assim como entre adeptos do movimento jamaicano, os primórdios do Mormonismo foram marcados por uma certa frouxidão doutrinária e precária hierarquia eclesiástica; até mesmo o conceito de igreja parece ter sido menos rígido.

Em uma revelação dada a Joseph Smith em 1828, Deus teria lhe dito: aquele que se arrepende e vem a mim, esse é minha igreja.[1] Estamos a quase dois anos da instituição “Igreja de Jesus Cristo” ser formalmente organizada, e o termo igreja já era usado pelos que seriam futuramente chamados de Mórmons. Logicamente, não poderia se referir à denominação religiosa formal, no máximo a um indivíduo ou grupo de pessoas. Este talvez tenha sido o primeiro significado do termo igreja usado por Joseph Smith.

Temos outros indícios de que no final da década de 1820 já existia uma pequena comunidade de crentes organizada . David Witmer afirmou ser um erro achar que a igreja foi organizada em 6 de abril de 1830, uma vez que antes dessa data o movimento já existia; e nos dá o motivo da organização formal da igreja: o mundo nos dizia que se não fôssemos uma igreja regulamentada não poderíamos oficiar as ordenanças de casamentos, manter propriedades etc, e que deveria ser de acordo com a lei da terra[2]

Ele ainda acrescentou: o Espírito Santo estava conosco com mais poder durante os oito meses que antecederam o seis de abril de 1830 que em qualquer outro momento posterior. Quase todos que foram batizados receberam o Espirito Santo em poder, alguns profetizando, falando em línguas; os céus eram abertos para outros, e todos os sinais que Cristo prometeu que seguiria aos crentes estavam conosco em abundância.[3]

O que no início talvez não fosse tão diferente das demais comunidades protestantes americanas, aos poucos- quando mais e mais elementos foram sendo incorporados às crenças dos Mórmons-estes foram se distanciando teologicamente dos demais cristãos.

Poucos meses após a organização formal da igreja, ocorreu um evento que marcaria o pontapé inicial do rígido conceito de autoridade que o Mormonismo viria a desenvolver: Hiram Page afirmou receber revelações de como conduzir a Igreja e influenciou proeminentes membros da época, como Oliver Cowdery. Até aquele momento, não havia uma orientação explícita que impedisse outros membros da igreja de declarar a vontade de Deus para a comunidade.[4]Uma revelação foi dada: Ninguém será designado para receber mandamentos e revelações nesta igreja, a não ser meu servo Joseph Smith(..).[5]

Entre os Rastas, a precária estrutura hierárquica fragilizava sua unidade desde o início. Ao trazer a noção de que somente ele revelaria a vontade de Deus, Joseph dificultou a ação de possíveis usurpadores, e as cisões dentro do Mormonismo tiveram que esperar mais algum tempo, até Joseph ser entendido como um profeta decaído ou falecer.

Não é muito fácil indicar quem seria o Joseph Smith dos Rastas, já que duas das figuras centrais do movimento, Selassie e Garvey, aparentemente, não abraçavam a causa. Porém, o título “primeiro rasta” dado a Leonard P. Howell lembra o título dado a Joseph por Donna Hill.[6]. Os boatos de que Howell tinha mais de dez esposas também o aproximam do profeta Mórmon.

Embora Garvey não se identificasse como Rastafari, alguma comparação entre ele e Joseph Smith pode ser feita. Ambos são considerados profetas e precursores das respectivas tradições religiosas. Seus antepassados lutaram por uma causa relacionada com a liberdade: os de Garvey, contra a escravidão negra; os de Joseph, pela independência das treze colônias[7]. Em ambas as famílias havia a esperança do nascimento de um profeta em seu meio; além, é claro, de ambos terem o mesmo nome de seus pais.

Uma comparação entre Smith e Selassie seria ainda mais forçada que as outras duas, afinal, lá Selassie é Deus. Todavia, o título de Messias, que também é atribuído ao etíope, pode ter algum paralelo com algumas perspectivas sobre o profeta Mórmon. Alguns apologistas SUDs têm defendido que Joseph Smith é o “Messias Filho de José”, que seria, de acordo com algumas tradições, um messias secundário que prepararia a vinda do “Messias Filho de Davi”[8].

Como falamos, muitos élderes do movimento jamaicano corrigiam partes da Bíblia por acreditarem ter sido a escritura corrompida pela “Babilônia”. De acordo com o Livro de Mórmon, o registro dos Judeus[9], tal qual chegou até nós, foi suprimida de partes claras e preciosas[10]. Enquanto os Rastas culparam “Babilônia” pelas alterações; Néfi atribuiu o ocorrido à Grande e Abominável Igreja[11]. Recuperar essas partes suprimidas era tão importante que uma das primeiras missões de Joseph Smith foi trabalhar no que foi chamado de tradução inspirada.

O termo “grande e abominável igreja” é identificada como sinônimo de “ a grande Babilônia, mãe das prostituta” do livro de Apocalipse.[12] Muitos Rastas, por motivos já comentados, associam “Babilônia” à Igreja Católica. No Mormonismo houve quem se aventurasse em tal afirmação.

Parley P. Pratt, frustrado com a falta de liberdade religiosa na América Latina em sua época de missionário no Chile, escreveu um panfleto cuja tradução para o espanhol ficou com o título Proclamacíon! Extraordinaria para los Americanos Españoles; nela Pratt escreve:

Asi, en breve, es la discripcion que dió Juan de la ‘Ramera Grande’, ó de la ‘gran misteria’, ó ‘mujer’, ó ‘ciudad’. Que tendria poder (…) este poder por necesidad deberiá ser la ciudad de Roma, o la mysteria de su religion, ó de la religion de que ella es cabeza(…) si perguntamos en cualquiera parte del mundo, cual es la grande? la yglesia universal de todas as naciones? será prontamente contestado asi, “ La Catolica Romana”[13]

Em 1958, foi a vez de Bruce R. McConkie que, na primeira edição de Mormon Doctrine, identificou o Catolicismo com a visão de Néfi: É também ao Livro de Mórmon que nos voltamos para a mais clara descrição da Igreja Católica como a grande e abominável igreja[14]

A estreita relação da Etiópia com o Jardim do Éden conforme narrado no livro de Gênesis trouxe a crença Rastafari de que a África-Etiópia é o berço da humanidade. Certas passagens de Doutrina e Convênios e registro de pessoas ligadas a Joseph Smith dão a entender que o profeta Mórmon localizou o Jardim do Éden nos EUA. Algo estranho, porém condizente com a crença dos primeiros Mórmons, para quem a América se ligava de algum modo com a História Sagrada.

De qualquer modo, não é tão difícil encontrar SUDs que afirmam ter feito suas genealogias até Adão. Basta perguntá-los em qual cartório eles encontraram o microfilme da certidão de nascimento do primeiro casal; se no de Addis Abeba ou de Jacksom County. ;] A julgar pelas descobertas científicas sobre o Homo Sapiens, os Rastas parecem ter mais razão.

Uma ideia comum aos dois movimentos é a da existência de um lugar de reunião. A diferença reside no significado que o continente americano tem para os dois grupos. Para os Rastas negros, a América era um local de escravidão, onde seus antepassados foram obrigados a ficar pela força da Babilônia; de onde, com a ajuda do Imperador etíope, seriam libertados.

Os Mórmons, ao contrário, viam a América como um lugar de liberdade, para onde seus ancestrais foram ou mesmo os conversos estavam indo para construir sua Nova Jerusalém. No Livro de Mórmon é forte a identificação da América como uma terra prometida; no Kebra Nagast, a Etiópia/ África era a continuação do Reino de Israel com as bençãos de Deus.

Como vimos, o retorno à África, algo que parecia estar às portas na mente dos Rastafaris durante o reinado de Selassie, teve que ser adiado, tornando-se um evento que ocorreria em um futuro indeterminado.

No Mormonismo, algo semelhante aconteceu. Uma revelação dada a Joseph Smith situava Sião em Independece, Missouri.[15] Assim como os Rastas, aquela reunião em um lugar determinado por Deus estava prestes a acontecer: uma cidade foi planejada, casas foram construídas, um terreno para construção de um templo foi dedicado. Porém, a oposição dos missourianos à construção da Nova Jerusalém atrapalhou aquela coligação que parecia estar tão perto .

Os Mórmons não iriam deixar aquilo barato; mais de 200 homens armados deixaram kirtland para redimir seus irmãos em Independence. Uma epidemia de cólera dizimou parte daquelas pessoas, e uma revelação de Smith[16] pôs fim ao que ficou conhecido como “Acampamento de Sião” . Na tradição Mórmon, um novo significado foi dado àquela empreitada: serviu como teste para determinar quem era digno de servir em posição de liderança e confiança(…).[17]

Se houve algum sucesso no tocante à espiritualidade, o mesmo não pode ser dito quanto à recuperação de terras dos santos no Missouri.Esse evento, juntamente com vários outros que ocorreriam nos anos subsequentes, rearranjou o conceito Mórmon de reunião: agora, ao lado da cidade santa de Sião, o lugar central, a ser redimido em um futuro indeterminado, os mórmons deveriam reuninir-se, ao menos provisoriamente, nas estacas de Sião, unidades eclesiásticas espalhadas por todo o mundo.[18]

A oposição que os Mórmons receberam tornou muitas vezes necessário o uso da força pelos santos na defesa de seus interesses.No segunto post da série, comentamos que guardas inspirados nos guerreiros africanos de longos cabelos protegiam a comunidade Rastafari liderada por Howell. Apesar de não ter sido uma regra ter o cabelo grande, o mais famoso dos guarda- costas de Joseph e Brigham, Porter Rockwell, também tinha uma longa cabeleira por motivação religiosa que remonta o voto do nazireu: “Não cortes o cabelo e serás forte como Sansão” teria sido o mandamento e a promessa feita a ele por Joseph Smith.

Os Rastas desenvolveram um dialeto próprio, o Iyriac; os Mórmons, por motivos diferentes, também se aventuraram, por algum tempo, a inovar no idioma: criaram o Alfabeto Deseret com o objetivo de reduzir o tempo dos estrangeiros aprenderem o inglês, além de facilitar o aprendizado da leitura pelas crianças e estimular a união dos santos. Essa investida não deu muito certo, pois a utilização do alfabeto criava mais dificuldades que as resolvia, de modo que a experiência foi abandonada. [19]

O conceito de Babilônia, com sua visão um tanto pessimista das instituições humanas, torna difícil a adequação dos Rastas aos novos padrões que a sociedade lhes impõe; essa resistência, inclusive, é entendida como uma virtude. No século XIX, o radicalismo das crenças SUDs, sobretudo a prática do casamento plural, criou uma barreira praticamente intransponível entre os Mórmons e a sociedade americana.

Após abandonar a poligamia, os Santos rumaram na busca de serem aceitos como verdadeiros estadunidenses. A projeção nacional de alguns Mórmons( e.g., ascenção política de Reed Smoot e a empresarial de Heber J. Grant) trouxe amigos para Igreja, que saía do ostracismo e se construía como uma religião respeitada e defensora dos ideais americanos; os mórmons, então, tornavam-se patriotas. Os membros da Igreja começavam a ser percebidos, conforme disse D. Michael Quinn, não apenas como americanos, mas como influentes pessoas de quem seus compatriotas queriam ser amigos.[20]

Desde que nosso “Moisés” lá na metade do século XIX deixou a barba crescer e assumiu publicamente a poligamia, esta era a imagem que se fazia de um mórmon: um homem barbado e polígamo. Na presidência de David O. Mckay os tempos eram outros. Tínhamos um apóstolo no gabinete do presidente dos EUA. Queríamos apresentar ao mundo um Mormonismo com uma cara mais moderna, completamente inserido no American Way of Life.

Bob Marley e Donny Osmond

Bob Marley e Donny Osmond

Tirar a barba e se ajustar ao “look” americano do pós-guerra era um símbolo do rompimento que se queria fazer com um passado de sectarismo, poligamia e ostracismo. Soma-se a isso o surgimento do movimento de contracultura, cujos adeptos exibiam suas barbas e longos cabelos como sinal de rebeldia, a famosa aparência do mal, que os mórmons deveriam tanto evitar. Os mórmons tiravam suas barbas, e seu salvador permanecia cabeludo e barbudo nas pinturas das capelas.

Assim como Marcus Garvey, George McGuire, que foi capelão da UNIA, ensinava que os negros deveriam esquecer a imagem branca de Deus e do Cristo que lhes eram passadas. No Catecismo Negro Universal, McCguire propõe a imagem do Todo Poderoso que deveria ser adotada por seus seguidores. Segundo ele, Deus é espírito, porém se tivessem que imaginar uma cor para Deus, que o imaginassem como um negro, já que os criou a Sua imagem e semelhança. Para Garvey, submeter-se a um deus branco equivaleria a submeter a raça negra à raça branca.[21]

No Mormonismo, Deus é um personagem masculino, de corpo tangível, antropomórfico e dotado de sexualidade. Quanto a sua aparência, é muito difícil um Mórmon imaginá-lo como um ser de pele escura, suponho. Já que a figura do Pai Celestial não costuma ser retratada por nossos artistas, nos voltemos a Cristo e a outras personagens da Bíblia.

Quais dessas figuras esperaríamos encontrar em nossas capelas e em nossos manuais?

Quais dessas figuras esperaríamos encontrar em nossas capelas e em nossos manuais?

As interpretações bíblicas e tradições que secundarizavam os negros, conforme comentamos no primeiro post, estavam presentes nas igrejas protestantes dos EUA bem antes do Mormonismo começar a desenvolver sua doutrina. Todavia, passagens das novas escrituras apresentadas ao mundo por Joseph Smith pareciam confirmar parte daquelas coisas.

O livro de Mórmon afirma que, em alguns momentos, Deus escureceu a pele de grupos de pessoas para diferenciar de outros mais obedientes[22]; “a tradução inspirada da Bíblia” menciona que a semente de Caim era negra[23]; o Livro de Abraão afirma que o Egito foi primeiramente governado por um neto de Cam que, apesar de ter sido abençoado com sabedoria, foi amaldiçoado com respeito ao Sacerdócio.[24]

Com o tempo, principalmente após a morte de Joseph, líderes proeminentes da Igreja interpretaram, em seus discursos, essas passagens das escrituras: (…) após o dilúvio, nós aprendemos que a maldição pronunciada sobre Caim foi continuada através da esposa de Cão, pois ele tinha se casado com uma mulher daquela descendência[25].

Mesmo alguém que acredite literalmente nos eventos narrados nas escrituras SUDs teria dificuldade de entender o fato de alguém no passado ter matado uma pessoa, ou visto o pai sem roupa pudesse justificar o impedimento que os Mórmons impuseram aos negros de desfrutar plenamente a condição de membro da Igreja.

Deveria haver mais algum elemento na doutrina, uma vez que não fazia sentido um negro no século XIX ou XX pagar por algum erro cometido por um suposto ancestral seu que teria vivido milhares de anos antes. Em muitas tradições religiosas, alguns acontecimentos considerados ruins ocorridos com uma pessoa são atribuídos a um pecado cometido em outra reencarnação. Mesmo tendo havido quem defendesse a reencarnação no Mormonismo, essa doutrina não vingou na Igreja SUD, porém esta desenvolveu o conceito de existência pré-mortal, a peça que faltava no quebra-cabeça da ideologia discriminatória.

Ou seja, para muitos mórmons do passado, nascer negro não vinha do acaso, nem se tratava de uma escolha arbitrária do criador: era a consequência de uma menor fidelidade na existência pré-mortal. Na famosa compilação de Bruce R. McConkie dos ensinamentos de seu sogro, que se tornou bastante popular em nosso, lemos:

Existe uma razão para um homem nascer preto e com outras desvantagens, enquanto outro nasce branco com muitas vantagens. A razão é que antes de virmos para cá, vivemos em outro estado, onde fomos mais ou menos obedientes às leis lá recebidas. Os que lá foram fiéis em todas as coisas receberam bênçãos maiores aqui, e os que não foram, receberam menos. [27] Ele continua: A raça negra, evidentemente, está recebendo o galardão que merece.[28]

Essas citações são bem conhecidas no Brasil, já a retratação de McConkie e os econômicos comentários de certas autoridades gerais classificando toda aquela exegese como folclore não foram traduzidas para nosso idioma em uma publicação da Igreja; ou se foram, não tiveram a mesma penetração que as ideias já difundidas.

A consequência disso é que os Mórmons de um modo geral, especialmente os brasileiros, continuam a acreditar em muitos desses trechos discriminatórios presentes em alguns livros que decoram nossas estantes; até porque fomos pouco treinados a entender que a Igreja pode errar.

A ideia de que a proibição do negro de receber o sacerdócio veio por revelação divina, da qual David O. Mckay discordava[29], e a passividade com que recebemos os ensinamentos dos líderes tornaram nossos correligionários reféns de suas próprias crenças. Se a segregação racial era senso comum no século XIX; na segunda metade do século seguinte, ela se tornava ridícula, e ainda estávamos obrigados a excluir nossos irmãos da plena vivência religiosa.

O Brasil, com sua intensa miscigenação, foi o país mais afetado pela política racial SUD, principalmente quando a Igreja aqui deixou de ser europeia. Cidades com maior presença de “descendentes de Caim” foram deixadas de fora da obra missionária. A política racial também desenhou o perfil socioeconômico dos conversos – sobretudo no Nordeste- onde a distância entre ricos e pobres estava mais ligada à raça que nas outras partes do Brasil onde o Mormonismo havia se estabelecido.

A consequência disso foi que, nos poucos anos de pregação no Nordeste antes de 1978, o número de conversos eram menores, e as pessoas que se batizavam na igreja eram geralmente de maior nível educacional e econômico que nas outras partes do Brasil.[30] Quadro que se inverteria com a revelação do sacerdócio, suspeito eu.

Entendendo que a inculcação desses valores segregacionistas seria lenta em um povo marcado pela mistura racial, os missionários disfarçavam a discriminação ao evitar dar detalhes sobre o assunto às pessoas a quem ensinavam. Esperavam muitas vezes até depois do batismo[31], até, quem sabe, as pessoas adquirirem um testemunho.

O conceito usual de testemunho no Mormonismo implica na incorporação de certezas absolutas, que aparentemente matam todas as dúvidas. A crença de que os profetas se comunicam periodicamente com Deus sacraliza suas palavras, e os membros tendem a absorvê-las sem nenhuma espécie de filtro pessoal. A capacidade de pensar criticamente fica fragilizada, o que os faz aceitar passivamente toda e qualquer ordem vinda da liderança: Eu não sei, exceto que o Senhor me ordenou. [32]

A alagoana Nadia Amorim, que começou sua pesquisa antes de 1978 em Maceió, transcreveu um conselho dado por um missionário a uma senhora da Igreja: Tenha cuidado irmã, na escolha dos investigadores. Procure pessoas de boa aparência; limpas, bem cuidadas, que não tenha linhagem. Não é tão difícil perceber quando ela existe. Os traços, de uma forma geral a revelam. Não somente a cor. Pode ser o cabelo, os lábios, o nariz. É que não adianta trazer para igreja, agora, indivíduos dela portadores. Já que não podem ainda receber o sacerdócio, é melhor evitá-los.[33]

O “melhor evitá-los” reflete o conhecimento que se tinha da complicada situação que seria (e foi) mantê-los na igreja. Ritos de passagens importantes na cultura Mórmon para os rapazes, como o avanço no sacerdócio e a missão de tempo integral, além da maioria dos chamados de liderança, não poderiam ser oferecidos a eles.

Outro rito de extrema importância em praticamente todas as culturas (e condição sine qua non para o mais alto céu no Mormonismo), o casamento,[34] também sofreria diferenciação, já que sem sacerdócio não se realiza as ordenanças templárias. Penso em nossos jovens da igreja, em especial as moças, que desde cedo tem o selamento no templo como sua meta maior; teriam que entender que casar-se naquele castelo encantado[35] não era para elas se tivessem ascendência africana ou se escolhessem alguém dessa linhagem como cônjuge. Que triste! Pelo que a igreja tinha a oferecê-los naquela época, a frase , “melhor evitá-los”, fazia sentido.

O que amenizava um pouco aquela frustração, em especial no tocante as ordenanças salvadoras, era o fato de não termos templos em nosso país. Ou seja, poucos eram os membros brasileiros que haviam entrado em um. Sem dúvida, a construção do templo de São Paulo, e a exclusão que ele causaria, sensibilizou a liderança da Igreja e foi um catalisador da revelação de junho de 1978.

De maneira a não acabar de vez com a esperança dos negros de alcançar o terceiro céu do Reino Celestial, muitos membros supunham que os “descendentes de Caim” receberiam o sacerdócio no Milênio. Este, o escape para todo problema aparente da confusa doutrina, expressa em um de nossos mais famosos clichês: no Milênio tudo será resolvido.

Ao contrário do que afirmou o missionário em Maceió, nem sempre era fácil apontar quem poderia receber o sacerdócio. A diferença de percepções sobre raça entre brasileiros e americanos gerava um conflito entre missionários estrangeiros e membros locais, pois estes avaliavam mais o aspecto físico; aqueles, até mesmo por entender melhor a doutrina, apegavam-se à questão genealógica.[36]

Para se cerificarem de que as pessoas a quem pregavam não tinham a “linhagem”, os missionários, discretamente, e sob o pretexto do interesse por genealogia, perguntavam sobre os ancestrais dos candidatos ao batismo e pediam fotos de seus familiares. Caso a dúvida persistisse, os élderes faziam visitas aos parentes dessas pessoas e checavam seu aspecto físico. [37]

Outro método usado no Brasil era a benção patriarcal. Os patriarcas eram instruídos, quando fossem conferir suas bênçãos aos negros, a não declararem uma tribo de Israel a eles. A crença era: uma vez que não possuíam o sacerdócio, não poderiam fazer parte da Casa de Israel.

Quando existia a dúvida quanto à linhagem, e a benção patriarcal vinha com a designação da tribo, a liderança local entendia que a pessoa não poderia ser descendente de Caim, e o sacerdócio lhe era conferido.[38]

O desconforto vinha quando alguns patriarcas se sentiam inspirados a declarar uma tribo de Israel a pessoas com notória feição negróide, fato que chamou atenção de L. Tom Perry ao visitar o país em 1976. O apóstolo comentou ter entrevistado patriarcas e constatado esse problema . [39] Adotassem os Mórmons as crenças Rastafaris, que ensinam que os negros são a reencarnação da antiga Israel, aquilo se encaixaria como uma luva; porém, o então nível de tradição interpretativa Mórmon não permitia essa aventura.

O imortal Jorge Amado, que em 2012 fez cem primaveras, retratou na ficção um episódio que se assemelha ao que ocorria algumas vezes na Igreja no Brasil. No romance Tenda dos Milagres, muitos dos proponentes da segregação racial na Bahia foram pegos de surpresa quando o mestiço Pedro Arcanjo provou que entre seus antepassados também existiam pessoas de cor.[40]. Há relatos na história da Igreja de missionários tendo que voltar do campo e líderes sendo desobrigados quando descobriam a existência de africanos entre seus acendentes, como o que aconteceu com o presidente do ramo de Ipiranga em 1964.[41]

Uma doce contradição acontecia no Rio de Janeiro no início dos anos 70, quando um irmão, mesmo sabendo das restrições que lhe seriam impostas, aceitou o evangelho e despontou como um dos mais proeminentes Mórmons do país. Sua esposa e filhos também aceitaram o evangelho. Eles se tornaram uma família SUD modelo. Ao contrário da maioria dos Mórmons negros da época, aquela família era bem posicionada na sociedade, talvez, mais que qualquer outra entre os membros brasileiros. Aquele homem por ter servido como relações públicas no Rio, tornou-se o SUD de maior visibilidade.[42]

De acordo com a opinião de alguns membros da época, a família Martins era ao mesmo tempo uma resposta da Igreja contra os crítico e, mesmo sem saber, os advogados brasileiros diante da liderança geral da Igreja pela necessidade de uma mudança na política racial.[43]

Como nasci quase uma década depois da Declaração Oficial nº2, não vivenciei a segregação. Pelas conversas que tive com membros daquela época, pude notar como era doloroso ter que privar alguns irmãos de receber o sacerdócio; se dependessem da maioria deles, sem dúvida, nada daquilo existiria.

“Lembro-me de vários irmãos maravilhosos, era uma pena não portarem sacerdócio, muitos eram bem melhores que eu”, foi o que me contou um dos primeiros líderes no Brasil; “ tinha um irmão bem firme na minha ala que não era portador do sacerdócio pois tinha a ‘linhagem’, quando veio a revelação, o irmão ficou no meio e toda a ala junta o abraçou, todos choramos naquele dia”, relembrou um simpático patriarca cearense que conheci na missão.

A revista Veja de 5 de julho de 1978 publicou:

Durante gerações, adeptos mais liberais da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a seita dos mórmons, cujos profetas e presidentes dizem conversar pessoalmente com Deus, aguardaram a revogação do mais embaraçoso obstáculo à expansão de sua doutrina- a proibição do sacerdócio aos Negros. Em meados do mês passado, porém, finalmente baixou dos céus a autorização longamente esperada.

De uns tempos pra cá, no entanto, profetas e presidentes da Igreja dos Últimos Dias começaram a pregar que um dia o próprio Deus levantaria a proibição. Na verdade, era uma maneira de eles reagirem às crescentes pressões dos defensores dos direitos civis, movidos a partir da década de 60 (…) a grande beneficiária da revelação de Kimball é a própria sociedade americana, onde a Igreja dos Últimos Dias representava uma das últimas organizações a apegar-se a uma política racial claramente discriminatória. [44]

A tão esperada revelação veio, e nossos irmãos puderam se soltar das correntes impostas pela ideologia racista presente na sociedade americana do século XIX, fonte da qual beberam os Mórmons enquanto desenvolviam e definiam suas crenças. À igreja foi dado a chance de crescer no Brasil. O chefe daquela proeminente família pôde exercer seu sacerdócio- foi chamado bispo, depois, membro de uma presidência de estaca. Quando minha cidade natal passou a sediar uma missão, a Missão Fortaleza Brasil, Helvécio foi chamado como presidente. Poucos anos depois, ele apareceria na revista Aliahona/ Ensign, destacando-se na página que traz a foto das Autoridades Gerais, como o primeiro afrodescendente a integrar aquele grupo. A história de Helvécio Martins já é bem documentada, espero que consigamos, especialmente com a ABEM, resgatar o legado dos demais pioneiros negros do nosso país.

Quanto à superioridade branca, conforme os Mórmons ensinaram por muito tempo; e a supremacia negra dos primeiros Rastas, prefiro ficar com letra de Meninas do Brasil do meu conterrâneo Fausto Nilo, mais famosa na voz de Moraes Moreira: Deus me faça brasileiro, criador e criatura um documento da raça pela graça da mistura (..).

-

[1] D&C 10:68
[2-3] Trecho pode ser visto aqui
[4] Neves, André Ruz. Linha sobre linha: Investigação sobre a sociologia da dominação carismática e da cotidianização do carisma no mormonismo(1820-1847). 2005. Dissertação(Mestrado em Sociologia)- FFLCH/USP , p. 162
[5]D&C 28:2
[6]
[7] ] História da Igreja na Plenitude dos Tempos. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. São Paulo. 1989. Pág.18
[8]Um texto em português pode ser visto aqui
[9] 1Né. 12:23
[10] 1Né.13:28
[11] 1Né. 13:26
[12]Apoc. 17:5
[13]texto do Parley, aqui
[14] Um excelente texto do Antonio Trevisan discorre mais sobre o tema. .
[15] D&C 57:1-3
[16]D&C 105
[17] História da Igreja na Plenitude dos Tempos. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. São Paulo. 1989. Pág. 398
[18] Neves, André Ruz. Linha sobre linha: Investigação sobre a sociologia da dominação carismática e da cotidianização do carisma no mormonismo(1820-1847). 2005. Dissertação(Mestrado em Sociologia)- FFLCH/USP, p.110
[19] História da Igreja na Plenitude dos Tempos. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. São Paulo. 1989. Pág. 398
[20]A entrevista completa de D. Michael Quinn pode ser vista aqui.
[21] RABELO, Danilo. Rastafari: identidade e hibridismo cultural na Jamaica, 1930-1981. 2006. Tese (Doutorado em História)-Universidade de Brasília, Brasília, 2006.pp.158-159
[22] 2 Né. 5:21
[23] Móis. 7:22
[24] Abr. 1:26
[25] JD 22:304
[27] Doutrinas de Salvação, volume I, p.67.
[28] Idem, p. 73
[29] Prince, Gregory A. David O. Mckay and Blacks: Building the Foundation for the 1978 Revelation. Dialogue.35. Spring 2002. p. 147
[30] Grover, Mark L. The Mormon Priesthood Revelation and the Sao Paulo, Brazil Temple.Dialogue 23(Spring, 1990): p. 46
[31] Amorim, Nádia Fernanda Maia de. Os Mórmons em Alagoas, religião e relações raciais, FFLCH/USP, Coleção Religião e Sociedade Brasileira, 1986. p.103
[32]Moisés 5:6
[33] Amorim, Nádia Fernanda Maia de, Os Mórmons em Alagoas, religião e relações raciais, FFLCH/USP, Coleção Religião e Sociedade Brasileira, 1986. p.105
[34] D&C 132
[35] O termo Castelo Encantado foi usado por uma amiga na época do seminário. Não se tratava de uma afronta à sacralidade do templo, mas de uma percepção lúdica desses edifícios.
[36] Grover, Mark L. Religious Accommodation in the Land of Racial Democracy: Mormon Priesthood and Black Brazilians.Dialogue. 17(Autumn,1984)pp.28-29
[37]Idem, p. 27
[38] Idem, p.32
[39] Idem
[40] Amado, Jorge.Tenda dos Milagres.São Paulo:Companhia das Letras, 2008. 308p
[41] ] Grover, Mark L. Religious Accommodation in the Land of Racial Democracy: Mormon Priesthood and Black Brazilians.Dialogue. 17(Autumn,1984)p. 31
[42] Grover, Mark L. The Mormon Priesthood Revelation and the Sao Paulo, Brazil Temple.Dialogue 23(Spring, 1990).pp. 43-44
[43] Idem, p. 44
[44]O acervo da Revista Veja pode ser acessado aqui.

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3 comentários sobre “Movimento Rastafari e os Mórmons 3-3

  1. Emanuel, as duas primeiras partes foram boas mas esta…..tá espetacular.
    Eu quero deixar meu comentario, juntando o que aprendí em 7 anos de mormonismo, 16 de espiritismo e tudo o mais que pude absorver nessa vida, inclusive nesse blog que vem me ajudando muito:
    Eu penso que Joseph Smith nunca teve vinculo com essas barbaridades que se seguiram após sua morte, Joseph era abolicionista, aprendeu ensinamentos que hoje seriam facilmente catalogados como espiritas, teve que abandonar ou simplificar varias dessas vertentes pois os ensinamentos eram demasiadamente pesados para os santos da época, apesar de muitos deles terem sido muito mais “cheios do espirito” do que a maioria dos santos de hoje, mas eu não sei porque Joseph escolheu esse caminho, ele deve ter tido seus motivos.
    O que me parece é que os demais que sucederam Joseph Smith retiveram ainda mais coisas e acresentaram outras que só escureceram a grande luz natural dessa Igreja ou, desse Evangelho como um todo.
    Mas Joseph Smith era muito lucido quanto a tudo isso, veja só o que ele disse a respeito do que estou falando:
    “Adquirimos conhecimento das verdades eternas um pouco de cada vez; podemos aprender todas as coisas na proporção em que as pudermos suportar.” (“Capítulo 22: Adquirir Conhecimento de Verdades Eternas, Manual “Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Joseph Smith)”
    Essa citação eu já usei aqui no blog umas 3 vezes (ta ficando batida), o irmão David me mostrou, apesar de que ela está logo lá, no manual, eu é que passei batido por ela mas se encaixa tão bem em nossa realidade que vale a pena repetir.
    O problema é que a restrição do sacerdocio aos negros até 78 não se encaixa na realidade, pelo menos ao meu ver.
    A realidade foi mudada por Brigham Young e os demais Profetas até 1978 não tiveram coragem de trazer a Igreja à realidade de uma Igreja legitimamente cristã, daí os choros, a indignação de membros que sabiam que a essencia da igreja era pura mas os anos contaminaram a revelação recebida por Joseph Smith com doutrinas de homens, justamente uma advertencia que o proprio Pai celestial deu a Joseph Smith lá no inicio e que não foi seguida à risca.
    O Profeta Gordon B. Hinckley ao ser questionado sobre o porque da proibição pré 78, disse apenas:
    “Eu não sei !”, isso diante de milhares de pessoas e diante do apresentador de talk show Larry King.
    Foi uma bela oportunidade de o Profeta dar uma boa explicação sobre o assunto mas ele não o fez.
    Essas coisas me fazem pensar que há uma grande diferença entre o iluminado Joseph Smith e seus sucessores, mesmo que eu os respeite devidamente.
    Alguém quer discordar ?

  2. Parabéns, Emanuel. Esta terceira parte foi realmente esclarecedora e inspiradora.

    Concordo com você, temos realmente que resgatar a história e a memória dos pioneiros negros da IJCSUD no Brasil.

  3. Bem, as similaridades entre ambas as religiões realmente são muitas. Ótimo!

    Gostaria de comentar alguns pontos do artigo:

    – Assim como os Rastas, eu também acredito que a África (mais precisamente Etiópia) é o berço da humanidade;

    – Eu também acredito que os mórmons deveriam deixar de lado essa imagem de um Jesus branco (e que em muitas pinturas suds o concebem loiro e de olhos azuis). Pra ser sincero, Jesus não é assim, ele é moreno, isto é o que evidencia todas as características da região onde ele nasceu. O mesmo eu digo sobre sua mãe Maria , mesmo o Livro de mórmon dizendo que ela é “extremamente formosa e BRANCA”;

    – Pra mim, Deus não escureceu a pele de ninguém, nem como marca e muito menos como maldição. Ele não fez isso com os negros e nem com os índios. Sobre isto, estou em total desacordo com o que diz o Livro de Mórmon e o Livro de Moisés;

    – Sobre a pré-existência e os negros. Foi uma das piores doutrinas ensinadas no mormonismo. McConkie se retratou disto, porém, que os negros eram descendentes de caim ele não abandonou, mesmo depois da “revelação” de 1978. Ou seja, ele continuou sendo um racista (mesmo que inconsciente) até sua morte;

    – Sobre a “revelação”. Pra mim nunca houve revelação referente ao negro nesta igreja. Eu penso mais ou menos como David O. Mckay, esta pratica entrou na igreja “administrativamente” e é bem provável que saiu da mesma forma. Só que sob pressões. A declaração oficial 2, foi só mais uma “jogada administrativa” para dar uma cara de “revelação” à ordenação do sacerdócio aos negros;

    – Ao contrário da família Martins, minha família jamais entraria nesta igreja naquela época. Minha esposa é branca e hoje temos um filho (Davi Moroni, 1 ano), que é a nossa maior alegria, então, vale a pena afastar-se da segregação (do racismo) em prol da felicidade e das pessoas que amamos;

    Podem concordar e descordar de mim, não tem problema, más é assim que eu penso!

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