Mórmons e o rock

Não há música no inferno, pois toda boa música pertence ao céu.

Brigham Young¹

1960Um povo que sempre se dedicou à música como forma de entretenimento e adoração, os santos dos últimos dias não escapam das influências musicais e culturais que os cercam. Inclusive o rock.

O tema é trivial, mas mostra como pronunciamentos de líderes da Igreja podem refletir o pensamento de sua geração e como a Igreja é também capaz de aproveitar de forma positiva uma influência antes denunciada como nefasta.

Em 1972, quando o rock era ainda uma força criativa e contestatória, o apóstolo Ezra Taft Benson advertiu os estudantes da BYU contra a natureza satânica daquele estilo musical:

Música rock, com seu apelo físico instantâneo, é ideal para romper as portas, porque o diabo sabe que a música tem o poder de enobrecer ou corromper, para purificar ou poluir. Ele não vai se esquecer de usar o seu poder sutil contra você. Seus sons vêm do mundo tenebroso das drogas, imoralidade, obscenidade e anarquia. Seus sons estão inundando a terra.²

"Comunismo, hipnose e os Beatles", de 1974

“Comunismo, hipnose e os Beatles”,  livro publicado nos EUA em 1974

O élder Benson, nascido em 1899, se opunha à integração racial nos EUA e é possível que sua percepção do rock também estivesse ligada às suas visões racistas, já que o rock era originalmente um estilo de música negra. Além das implicações para a exclusão de negros do sacerdócio, Benson via a integração racial como uma arma comunista. Também se deve levar em conta a forte oposição à Guerra do Vietnã à época da declaração acima. E o movimento anti-guerra – incluindo o movimento hippie, embalado pelo rock –  seria, na opinião dos extremistas de direita, outra ferramenta comunista para destruir a sociedade norte-americana. Benson acreditava que  rock estava à serviço dos comunistas? Não sei. Mas a  inusitada concepção do rock como ferramenta da ideologia marxista era partilhada por outros cristãos nacionalistas, como mostra o livro ao lado.

Muito mais moderado em suas visões políticas e distante daquele ambiente de contestação, Gordon B. Hinckley ainda assim sugeriu, em 1991, que o rock não seria uma música a ser apreciada por santos dos últimos dias. Em uma coletânea de seus ensinamentos na presidência da Igreja, publicada em 1997, há este conselho:

Apreciem a música. Não o “rock and roll”, mas a música dos mestres, a música que tem sobrevivido através dos séculos, a música que eleva as pessoas. Se você não gosta desse tipo de música, ouça-a novamente e continue ouvindo-a. Será algo como ir ao Templo. quanto mais você vai, mais bela será a experiência.³

Não sei que motivações poderiam estar por trás da afirmação do presidente Hinckley. Políticas, imagino, nenhuma. E se ele entretinha alguma caracterização espiritual do rock, consciente de sua imagem pública, absteve-se de dizer. Quem sabe, não se trataria de um mero conflito (estético) de gerações?

Brandon Flowers (centro),  cantor do The Killers

Brandon Flowers (centro), cantor do The Killers

Em anos recentes, a campanha “Eu sou mórmon” mostra que, ao menos externamente, a Igreja não vai dizer nada contra o rock. Ao contrário. Em alguns perfis de brasileiros que participam da campanha, há referências ao seu gosto musical, como do rapaz que afirma “ir ao instituto [de Religião] e escutar o bom e velho rock’n roll.” E o mais famoso mórmon participando da campanha é justamente um roqueiro profissional – Brandon Flowers, vocalista da banda The Killers. Ou seja, o que foi denunciado por Ezra Taft Benson e desaconselhado por Gordon B. Hinckley hoje ajuda na campanha de publicidade da Igreja.

Provavelmente, o gosto musical da maioria das autoridades gerais não passou a incluir rock, mas os marqueteiros profissionais em Salt Lake parecem ter maior autonomia para fazer suas campanhas. Também precisamos reconhecer que, após mais de meio século de vida, o rock já não incomoda e é muito mais norma do que contestação. Quem sabe em alguns anos não veremos o Coro do Tabernáculo interpretando clássicos dos Beatles ou Elvis?

NOTAS

1. Journal of Discourses 9:244

2. BYU Ten-Stake Fireside, Provo, Utah, 7 de maio de 1972.

3. Teachings of Gordon B. Hinckley, Deseret Book, 1997, p. 395

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16 comentários sobre “Mórmons e o rock

  1. Não sabia desse lado negro do pres. benson, racismo é crime no brasil e deve ser em qualquer lugar, é uma informação muito impotante e principalmente para nós brasileiros que somos uma mistura de raças e cores, mas como leitor e repassador dos conhecimentos adqueridos não me empolgo com informações sem referências confiaveis,se o moderador do blog sabe desse lado sombrio do élder Benson poderia comprovar tal declaração de que ele era racista em algum de seus pronunciamentos ou declarações por escrito, para que essa informação tenha credibilidade,lançar uma informação sobre um crime de alguem é facio, pricipalmente se o mesmo já não tem como se defender, mas a informaçao com provas por escrito ou em falas para testemunhas são as únicas que podem ser lamçadas pois do contrário são meras especulações para criar polemicas.

    • Olá, Marcus,

      as visões raciais de Ezra Taft Benson exigiriam um novo post. Brevemente, vou apenas apontar para algumas informações:

      – racismo é um fenômeno presente em muitas culturas e sua definição como crime é muito recente;

      – mórmons foram influenciados por ideias racistas no passado; algumas dessas ideias ainda encontram terreno fértil, como vimos num episódio de 2012;

      – o apóstolo Ezra Taft Benson era um dos líderes que acreditavam na exclusão dos negros do sacerdócio (exclusão que perdurou na Igreja até 1978);

      – Benson se opunha ao movimento por direitos civis, o qual propunha igualdade de direitos para os negros; na década de 1960, ainda existiam leis discriminatórias nos EUA; um dos líderes mais importantes desse movimento foi Martin Luther King;

      – Benson ensinou do púlpito, como apóstolo, que movimento de direitos civis visava implantar o comunismo nos EUA – “Não há dúvida de que o assim chamado movimento de direitos civis como existe hoje é usado como um programa comunista para a revolução na América assim como a reforma agrária foi usada por comunistas para tomar a China e Cuba”, disse Benson na Conferência Geral de outubro de 1967 (p. 35); no mesmo discurso, denunciava a suposta tentativa mal-sucedida de se formar uma “República Soviética Negra” no sul dos EUA p. 37);

      – Benson cedeu o texto de um discurso seu para um livro intitulado “O Martelo negro: poder negro, influência vermelha e alternativas brancas”; no desenho da capa, um martelo entrava na cabeça de um negro, cabeça essa decapitada pela foice;

      quando se candidatou à presidência dos EUA, em 1968, Benson teve como vice de chapa, Strom Thurmond, árduo defensor da segregação racial.

    • - não confunda!
      eram outros tempo e o mundo evoluiu muito,
      que serviu no passado não serve mais no mundo atual.

      isso ainda custou um tempo para se adaptar aos novos tempos como o
      sacerdócio aos negros e por o rock ser de origem negra o pensamento não seria diferente.Lideres mais velhos não vão entender muito por não gostarem desse tipo de musica mas agora os novos lideres sim.
      hoje se pode dizer que qualquer musica que não edifica é do inimigo seja rock,samba,sertanejo.
      acredito que se o Pres. Benson ou Hinckely soubessem do funk já diria que metade do Brasil estaria perdido.

      • Não entendo, Deus se adpta a novos tempos? Se a verdade é revelação e a direção da igreja é diretamente de DEUS! Acha mesmo que DEUS se ADAPTA! A novos tempos? – “Eu sou imutável,” -“Meus caminhos são um circulo eterno.’ -“Não há engano em mim” -“sou o mesmo ontem hoje e sempre”…. pense nisso, me parece que isto foi apenas politicagem! Deus não é racista,

  2. a igreja sud não tem nada contra qualquer tipo de musica,somos sim aconselhados por nossos lideres a ouvir musicas que nos aproxime de Deus,musicas que fazem apologia a drogas,morte etc tenho certeza que não faz bem ao nosso espirito;

    • Rock = foguete = rebelião. É uma música que desde suas origens sugere a rebelião a sistemas governantes e autoritários. Não existe um roqueiro original que no seja rebelde. Não estou dizendo ser a favor ou contra apenas explicando que embora se coloquem um milhão de tags no que seria rock na sua origem ele apenas representa um sentido “rebelde”.

  3. Os conselhos não são tão específicos, o que não considero ruim, mas sim que deve-se evitar qualquer coisa que não seja de natureza edificante.

  4. Ezra T. Benson, incontestavelmente foi influenciado pela cultura anti-negro e anti-comunista de sua época. Mas, ironicamente, eu também consigo ver uma ligação entre o Rock, o Comunismo e os Negros, só que positivamente.

    Posso citar um exemplo categórico, que ligaram – nada mais nada menos, que: Jonh lennon, The Rolling Stones, Partido dos Panteras Negras, Partido Comunista dos EUA e Angela Davis.

    É sabido que Angela Davis (ativista/militante negra) pertencia aos Partidos dos Panteras Negras e Comunista dos Estados Unidos e, que por isso, ela foi submetida a vários constrangimentos, desde ser expulsa da Universidade da Califórnia a ser investigada pelo FBI. Este último à fez viver na clandestinidade. Inclusive, ela entrou para a lista dos 10 foragidos mais procurados do país. A posterior, em outubro de 1970, ela foi presa (inocentemente).

    John Lennon e os The Rolling Stones, em solidariedade, fizeram as canções “Angela” e “Sweet Black Angel”, respectivamente, em sua homenagem e por sua liberdade. O que deu resultado positivo. Davis foi libertada em 1972, com a ajuda e mobilização de várias pessoas – principalmente do meio artístico – ligadas ao Movimento Negro, ao Comunismo e ao Rock.

    Portanto, mesmo que em partes, esses 3 movimentos já tiveram algo em comum.

    Obs.: Dizem alguns (comunistas ou não) que John Lennon referiu à sua canção “Imagine” como “O Manifesto Comunista em sua mais pura essência”. Para quem já leu o Manifesto Comunista de Karl Marx, é impossível não perceber as semelhanças.

  5. O rock deixou de ser há muito tempo um estilo ou tipo de música, hoje em dia ele é quase um espirito sem barreiras com infinitas ramificações, com muita coisa boa e excelente: material cultural, carga folclórica, histórica, e etc e claro, há também coisas não tão louváveis como apologia ao satanismo, as drogas, libertinagem, depressão, suicídio e etc. Que cada um use seu arbítrio com sabedoria para saber o que deve lhe adentrar pelo canal auditivo.

  6. Antonio, excelente texto. Que possamos acolher o que há de bom no rock e em outros ritmos. O que for ruim, descartemos.

  7. Eu ouço rock desde os oito anos de idade, comprei meu primeiro “vinil” em 1981, o disco “Tatoo You” dos Rolling Stones, aos dez anos de idade, era algo incrivel para a época.
    Anos depois meu gosto musical inclui heavy metal, minha banda predileta é Helloween.
    Quando entrei para a Igreja em 2006, fiquei muito feliz em saber que os membros não ouviam musica gospel, como é padrão na maioria da igrejas evangelicas.
    Eu acho que a musica se assemeha com a arte, o cinema, espetaculos etc, voce pode ouvir as peças sem necessariamente fazer parte daquilo que é interpretado, eu posso assistir um filme de terror ou suspense e nem por isso tome parte dessas coisas para a minha vida.
    Podemos, com bom senso, reter aquilo que é bom e passar os olhos por aquilo que é ruim, descartando aquilo que não interessa.
    Sem contar que hoje em dia as bandas oferecem bons temas, boas letras e mensagens para refletir, posso deixar duas aqui ?

    e mais uma :

    são letras para refletir……

  8. Vamos dividir a Midia em 3 categorias: (1) Coisas que nos levam a Cristo; (2) coisas que nos levam aos homens; (3) coisas que nos levam ao Diabo. Todos os programas na televisao, radio, internet, musica etc.. se enquadram dentro de uma dessas categorias. O inimigo sabe muito bem como usar esses meios de comunicacao para mover as pessoas de uma categoria a outra, sua meta principal e mover toda a humanidade para a categoria 3 pois e justamante nessa categoria que ele tem poder e controle total na vidas dos seres humanos, ele sabe muito bem que na categoria 1 existe luz abundantemente e na categoria 2 embora com menos intensidade mais ainda ha luz e ele nao consegue operar com a mesma eficacia na categoria 2 e muito menos na 1. Sua arma para mover as pessoas para a categoria 3 se chama dessensibilizacao, Primeiro ele tenta distrair aqueles que estao na categoria 1 com coisas razoavelmente inofensivas mas com sutil imagens ou sons com a finalidade de preparar as mentes humanas para coisas mais serias, ele tambem tem muita paciencia para obter resultados, com aqueles que ja se encontram passando maior tempo na categoria 2 ele ja consegue mover los para a categoria 3 onde todo tipo de entretimento e diabolico (violencia, sexo, vicios etc..) Devemos observar atentamente onde estamos individualmente e como grupo. Acredito que a maioria das pessoas e organizacoes se encontram na 2 mas ja estao maduros para pular para 3, A igreja de Jesus Cristo que quando restaurada se encontrava na categoria 1 ja se encontra na 2, no Livro de Mormon vemos que apos a visita de Cristo aos Nefitas a igreja foi estabelecida e permaneceu na categoria 1 por 2 seculos e depois pulou para 2 e no final se encontrou na 3 onde a destruicao era a unica opcao, vemos que no final Lucifer tinha total dominio sobre as pessoas e a violencia e outras atividades malignas eram generalizada entre o povo. Infelizmente estamos indo na mesma direcao mas porque tudo e tao sutil que nem percebemos.

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