Filosofando o mundo: um ensaio acerca da busca pela Verdade e pela essência da natureza humana

Texto de Ananda Maria Maciel. Ananda é formada em Pedagogia e mestranda na Universidade Federal de Santa Catarina. Entre 2011 e 2012, serviu como missionária de tempo integral na Itália.

Encontrar a verdade: eis a velha consciência da incompletude humana. Porém, qual o sentido de nossa existência? O que nos torna, de fato, seres humanos, com capacidade de pensar e agir sobre o mundo? O que é o mundo? Existe uma única e absoluta verdade? Se existe, onde podemos encontrá-la?

Estas indagações sempre estiveram presentes na filosofia, desde os primórdios da história humana. Parece-me que questionar o mundo e sua existência é parte inerente do que somos.

Mas o que somos, afinal? Poeira cósmica no caos da imensidão? Seres que existem porque pensam, ou seres que pensam porque existem? Maus por natureza, ou bons em essência, corrompidos pelo convívio em sociedade? O que seria o bem ou o mal? Podemos escolher verdadeiramente entre um dos dois lados? Se não podemos, porque nos enganamos em nossa busca da verdade?

Livre-arbítrio. Causa e efeito. Essência e aparência. Ordenar o caos. Não há o caos. Tábula rasa. Alma e Corpo. Bem e Mal. Esperança e angústia. Verdade. Nada. Tantas visões diferentes, em tantas épocas diferentes…

O que somos? Quem somos? Por que vivemos? Por que buscamos a verdade? Qual o papel da educação no processo de tornar-nos quem somos ou o que devemos ser?

Platão, o grande expoente da filosofia grega clássica, seiscentos anos antes da Era Cristã, lembrava-nos do amor e da amizade ao conhecimento. Para ele, o mundo sensível e palpável das experiências físicas só poderia existir se já o tivéssemos conhecido no mundo inteligível das essências – portanto, à educação caberia o papel de relembrar-nos quem somos, e o que podemos tornar-nos. Esta seria a busca pela Verdade, e aprender incluiria distinguir o bem do mal e escolher o que é belo e justo, isto é, o Bem em todas as suas infinitas formas. Quanto maior a inteligência, maior a luz e a verdade da razão humana.

Na Idade Média, teólogos como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino “cristianizaram” as ideias centrais do pensamento de Platão e Aristóteles, transformando-as em um dualismo sacralizado entre corpo e alma. O corpo era

considerado o templo que abrigaria o espírito, mas também a entrada do pecado e do mal. Dessa forma, a educação ensinaria a submissão do corpo à alma, subjugando os desejos “carnais” à vontade do espírito, para que não ofendêssemos a Deus. Contudo, estaríamos para sempre “condenados” ao desígnio divino? Onde estaria, então, o livre-arbítrio?

Após a “Idade das Trevas”, o Renascimento – movimento da Racionalização humana na Europa da Idade Moderna – propôs um retorno aos ideais clássicos, trazendo uma nova concepção de homem e de mundo. Um século mais tarde, o Iluminismo, cuja influência na Revolução Francesa de 1789 veio a culminar com o advento do capitalismo, com a Revolução Industrial como transformação econômica e social de toda a sociedade do Ocidente, trouxe consigo grandes avanços que abriram espaço para a profunda mudança política determinada pela Revolução Francesa.

O precursor do movimento iluminista foi o matemático francês René Descartes (1596-1650), considerado o pai do racionalismo. Em sua famosa obra “Discurso do Método”, ele recomenda, para se chegar à verdade, que se duvide de tudo, mesmo das coisas aparentemente verdadeiras. A partir da dúvida racional pode-se alcançar a compreensão do mundo, e mesmo de Deus.

Já as ideias políticas do filósofo e escritor francês Jean-Jacques Rousseau, que viveu de 1712 a 1778, com seu pensamento voltado contra as injustiças da época, repercutiram nos destinos da Revolução Francesa. Sua negação do racionalismo progressista, no entanto, somada ao intimismo confessional e à apologia dos instintos e da interação com a natureza, abriu caminho para a estética do Romantismo, o que o situa como autor pré-romântico na evolução literária.

A exaltação do Estado de Natureza tornou-se tema corrente na filosofia do século XVIII. Sua expressão máxima encontra-se na obra de Rousseau: “Tudo o que sai das mãos do Criador é perfeito… tudo degenera nas mãos do homem.” (Rousseau – O Emílio ou Da Educação, 1762).

Os temas mais candentes da filosofia política clássica, tais como a passagem do Estado de Natureza ao Estado Civil, o contrato social, a liberdade civil, o exercício da soberania, o surgimento da propriedade privada e o problema da escravidão serão tratados por Rousseau de maneira exaustiva, retomando o pensamento de Grotius, Hobbes e Locke. A trajetória do homem, de sua condição de liberdade no Estado de Natureza, até o surgimento da propriedade privada, com todos os inconvenientes que daí surgiram, foi descrita na seguinte frase, do capítulo I, do Livro I, do “Contrato Social”:

O Homem nasce livre e, por toda a parte, encontra-se aprisionado em grilhões. O que se crê Senhor dos demais, não deixa de ser mais escravo do que eles. Como se deu esta transformação? Eu ignoro-o. O que poderá legitimá-la? Creio poder resolver esta questão. (…) O primeiro que, tendo cercado um terreno, arriscou-se a dizer “isso é meu” e encontrou pessoas bastante simples para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da propriedade privada. (Nascimento, apud Rousseau, 1762)

Para Rousseau, o Estado de Natureza era um estado de felicidade e equilíbrio, onde havia relativa paz, concórdia e harmonia, ou seja, não havia organização política. O homem natural é solitário e independente, não tem linguagem, razão, propriedade privada, família, ou regras morais. Todos são livres e iguais, no seu estado natural, sendo o homem bom por natureza, mas corrompendo-se no convívio em sociedade, pois esta destrói sua liberdade. Rousseau idealiza o homem primitivo como um ser puro, inocente e livre (o Bom Selvagem), que estaria figurado na criança.

O projeto de uma “educação conforme a natureza”, não significa retornar à vida selvagem e primitiva, mas buscar a verdadeira natureza humana. A pedagogia rousseauniana é naturalista, porque prega o evangelho da natureza ante a cultura e a sociedade. Rousseau busca o homem primitivo, anterior a tudo quanto é social, pois a natureza humana é regida por leis gerais, racionais, acima de todas as circunstâncias sociais e históricas. Busca a “verdadeira natureza” que é a vocação humana. Isso é bem descrito em uma célebre frase de “O Emílio”:

Na ordem natural, todos os homens são iguais, sua vocação comum é o estado do homem. Viver é o que eu desejo ensinar-lhe. Quando sair das minhas mãos, não será, convenho nisto, nem magistrado, nem soldado, nem sacerdote: será primeiramente um homem, sim, tudo quanto um homem deve ser. (Nascimento, apud Rousseau, 1762)

Porém, o que o homem (e a mulher) deve(m) ser?  Vinte e cinco séculos após Platão e mais de dois mil anos depois da vinda de Jesus Cristo já se passaram, mas continuamos nos perguntando as mesmas coisas. Ainda não sabemos quem somos? Ainda não descobrimos a verdadeira essência da natureza humana?

Creio que não. Continuamos a nos enganar em nossa busca insaciável pela verdade. Ainda pior do que isto, a sociedade contemporânea perdeu-se em meio a um labirinto de dúvidas e incertezas. A velha fênix ressurgirá das cinzas, ou continuaremos caminhando em direção ao caos absoluto? E onde se encontra a filosofia, em meio a esta grande tormenta?

Amar a sabedoria é o belo e profundo dilema, não somente do filósofo, mas de cada ser pensante e consciente de sua incompletude. Cada indivíduo deve, portanto, perguntar-se a si mesmo o que realmente vale a pena em sua breve e finita existência humana. Palmilhar o melhor caminho torna-se, pois, parte imprescindível da jornada.

Contudo, muitos há que passam a estrada sem dar-se conta de qual caminho devem seguir porque, como Alice na encruzilhada do País das Maravilhas, simplesmente não sabem onde querem chegar. Se encontrarem o Gato Risonho, provavelmente aprenderão que, quando não se sabe para onde ir, qualquer lugar serve!

A sociedade contemporânea em que vivemos vem continuamente confundindo “liberdade” com “libertinagem”. Liberdade é um dos ideais pelo qual a humanidade mais lutou, a partir da Revolução Francesa. Somos seres livres, enfim. Mas o que é essa maravilha chamada Livre-arbítrio? Seria a estranha capacidade de fazer o que quisermos, sem sermos responsabilizados pelas consequências de nossos atos?

Prefiro a definição de Platão: liberdade verdadeiramente significa a capacidade de conhecermos o bem e o mal e a possibilidade de escolhermos o bem ao invés do mal, aceitando a responsabilidade por nossas escolhas. Já dizia o Grande Mestre Jesus Cristo que, se conhecermos a Verdade, esta nos libertará. Não seria de forma alguma uma obediência cega à vontade divina, mas a escolha consciente do Amor e da Verdade. Porém, o mundo tem ensinado valores inversos, à medida que os anos passam e a sociedade se transforma.

Não me cabe recorrer à Nietzsche para delatar os terríveis enganos da sociedade pós-moderna. Também não quero falar de pessimismo e desesperança, ou crer que não haverá soluções para os problemas que temos enfrentado. Não, não é sobre angústias que quero escrever. Porém, em um mundo atribulado, consumista e individualista, excludente, vazio de valores, injusto e extremamente assolado por guerras, o que nos resta? Há esperança? E quanto à educação, o que temos feito pelos nossos bons selvagens? Sabemos onde queremos chegar? Sabemos o que precisamos fazer para chegar lá?

Sim, eu sei. Sei quem sou e porque estou aqui nesta Terra. Não sou poeira de estrela, tenho um significado e um propósito específico em meio a imensidão do mundo. E não creio em destino, creio somente no tempo. Nossas escolhas traçam o caminho que precisamos percorrer. É desta maneira comigo e com cada ser único e magicamente individual que pisa nas estradas íngremes e poeirentas de nossa breve jornada.

Não sou um ser humano vivendo uma existência terrena, mas sou um ser divino vivendo uma experiência humana. E saber quem verdadeiramente sou muda todo o sentido de para onde vou, qual o caminho a seguir e quem devo tornar-me. Por isso, não recorro a Nietzsche. Tenho esperanças em encontrar meu lugar no Universo e fazer a minha parte para torná-lo um lugar melhor para mim e para outros viverem.

Referências 

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Século das Luzes: o ideal liberal de educação. In: História da Educação. São Paulo: Moderna, 1996.

GAARDER, Joisntein. O Mundo de Sofia. São Paulo: Companhia das letras, 1995.

GUIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. Caminhos da Filosofia. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

NASCIMENTO, Milton Meira do. Rousseau: da servidão à Liberdade. In: BOBBIO, Norberto (Org.). Clássicos da Política. (sem editora e sem ano de publicação)

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3 respostas para Filosofando o mundo: um ensaio acerca da busca pela Verdade e pela essência da natureza humana

  1. RAFAEL ALMEIDA disse:

    Elder Andersen afirmou que é possível saber quem realmente somos. o segredo, mistério se realmente for isso. é uma sincera oração e de saberemos seja com dor ou dores, saberemos quem somos, assim como Cristo soube quem éramos no jardim. um contexto e reflexão boa..

    • martin5000 disse:

      Quem somos está na alteridade do outro, somos aquilo que pensamos ser, ou que cremos que os outros imaginam, somos seres essencialmente sociais, e nos referências da nossa natureza, se encontram ao mesmo tempo a dúvida que leva a pergunta, quem somos, mas ao mesmo tempo o medo de saber quem realmente somos, o medo da verdade, o enfrentamento, o novo, a mudança. Imaginar que nem sempre somos o ideal que projetamos, traz dúvidas, medo e incoerência, a ausência da resposta está muitas vezes na ausência da pergunta. Realmente queremos saber quem somos de verdade. Penso que existem indivíduos que realmente não temem e vão além, descortinam saberes e vivências muitas vezes distantes da grande maioria, o que conduziu os grandes pensadores da antiguidade como Platão, Sócrates e muitos outros, indagarem, era realmente não temer a resposta, eram pessoas livres na essência, o medo é a pior prisão, pois nos cerceia, nos ilude, nos limita, já houvi pessoas deixarem de ler uma obra, por temerem o conhecimento que lá poderiam adquirir, isso é uma realidade, infelizmente muitos estão presos a uma mentalidade limitante e obtusa.
      E hoje ainda usufruímos mais daquilo que grandes mentes alcançaram do que das nossas próprias experiências, porque ainda não tivemos a coragem para percorrer o caminho que eles já percorreram. Sejamos sóbrios e constantes na busca pelo verdadeiro conhecimento, quem somos.

  2. Denise Gomes disse:

    Para alcançarmos nossa divindade só precisamos seguir a Cristo que trilhou o caminho e,disse-nos “Segui-me”.

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