A Sociedade de Socorro e o sacerdócio

Emma Smith

Emma Smith

Em 1842, a organização da Sociedade Feminina de Socorro de Nauvoo fazia parte do complexo quebra-cabeças teológico e organizacional desenvolvido por Joseph Smith em seus últimos anos de vida. Muito mais do que uma sociedade dedicada à caridade, as atas da Sociedade de Socorro nos mostram que ela foi criada para ser uma organização sacerdotal que prepararia as mulheres para exercer dons espirituais e autoridade divina.

A recepção ou uso do sacerdócio por parte das mulheres é um dos temas mais interessantes da história mórmon. No entanto, além de ser pouco conhecido entre os membros da moderna Igreja sud, existem percepções que herdamos e que bloqueiam nosso entendimento; ou ainda, que nos fazem ler o passado com os lentes do presente.

A própria fundação da Sociedade de Socorro fornece importantes pistas da visão de Joseph Smith sobre o sacerdócio e sobre o papel que aquela organização feminina deveria ter. Em abril de 1842, quando a Sociedade de Socorro foi organizada, Joseph Smith registrou o seguinte:

Às duas horas, reuni-me com os membros da ‘Sociedade Feminina de Socorro’ e após presidir na admissão de muitos novos membros, dei uma palestra sobre o Sacerdócio, mostrando como as irmãs viriam a possuir os privilégios, bênçãos e dons do Sacerdócio.

Na terceira reunião da nova organização, ele ainda afirmou que

faria desta Sociedade um reino de sacerdotes como nos dias de Enoque.²

Com a aprovação de Joseph Smith, Emma – a presidente da Sociedade – e suas conselheiras, Sarah Cleveland and Elizabeth Whitney, administraram bênçãos com imposição de mãos.

"Casa de Tijolod Vermelhos", onde foi organizada a Sociedade de Socorro e administrada a investidura.

“Casa de Tijolos Vermelhos”, onde foi organizada a Sociedade de Socorro e administrada a investidura.

Na quinta reunião, a irmã Durfee foi uma das pessoas que prestaram seu testemunho. Segundo as atas da Sociedade de Socorro, ela “prestou testemunho da grande bênção que ela recebeu na última reunião quando da administração por Emma Smith e Conselheiras Cleveland e Whitney”, acrescentando que “achava que as irmãs tinham mais fé do que os irmãos”.

A prática de imposição de mãos por mulheres aparentemente não recebeu absoluta simpatia na Igreja, de forma que Joseph Smith reiterou sua propriedade. Na ocasião, ele enfatizou a cura como um fruto da fé e a autoridade recebida pelas mulheres da Sociedade para realizar a imposição de mãos:

não há nenhum mal nisso, se Deus deu sua aprovação pela cura (…) não há mais pecado em uma mulher impor as mãos do que umedecer o rosto [do doente] com água.³

A ideia da cura como resultante da fé, no entanto, não apaga a promessa feita de que os membros da Sociedade de Socorro receberiam o sacerdócio. A bênção patriarcal dada por Hyrum Smith a Leonora Cannon Taylor, em julho de 1843, fazia menção ao futuro recebimento do sacerdócio na investidura:

Serás abençoada com tua porção do sacerdócio que pertence a ti, para que sejas designada para tua Unção e tua investidura. 4

Note-se que a Sociedade de Socorro foi organizada oficialmente dois dias depois da iniciação de Joseph Smith na maçonaria. (Veja datas abaixo) Não seria exagero supor que a mesma motivação para seu ingresso na ordem maçônica estivesse também por trás de suas instruções às mulheres lideradas por Emma Smith: uma preparação para os rituais do templo.

Um mês antes da investidura ser administrada pela primeira vez a mulheres, Joseph Smith discursou sobre o Sacerdócio Patriarcal, uma ordem do sacerdócio cujo conhecimento seria revelado apenas no templo:

Vão e terminem o templo e Deus o encherá de poder e então receberão mais conhecimento a respeito desse sacerdócio.

A promessa, portanto, de que os santos receberiam mais conhecimento sobre o Sacerdócio Patriarcal foi feita a homens e mulheres. Ambos, igualmente, dependiam um do outro para ingressar no “novo e eterno convênio do casamento”, definido como uma “ordem do sacerdócio”.

A prática de mulheres imporem as mãos sobre doentes persistiu durante todo o século XIX e início do XX. Durante uma viagem à região da Palestina, o élder George A. Smith, membro da Primeira Presidência, estava com um grupo que incluia Lorenzo Snow, sua irmã Eliza e Feramorz Little. Em uma escala em Bolonha, Itália, sentiu-se mal. “Fiquei cansado e tonto”, escreveu em seu diário. George A. Smith então relata pedir a três indivíduos que ministrem um benção de saúde  – entre eles, Eliza R. Snow:

Entrei em um carro e voltei para o hotel. Ao chegar no hotel, encontrei-me tão indisposto que eu pedi aos Ir. Snow e Little e irmã Eliza para impôr as mãos sobre mim. 5

Boa parte das promessas feitas por Joseph Smith àquele grupo de mulheres – de que “viriam a possuir os privilégios, bênçãos e dons do Sacerdócio” – seria concretizada com as ordenanças do templo, a começar pela investidura. Nessa ordenança, chaves do sacerdócio eram transmitidas. Sobre a primeira vez em que Joseph Smith administrou a investidura a um grupo de oito homens, escreveu:

Dei-lhes instruções sobre os princípios e ordem do sacerdócio, cuidando dos lavamentos, unções, investiduras e da comunicação das chaves pertencentes ao Sacerdócio de Aarão, e assim sucessivamente até a ordem mais alta do Sacerdócio de Melquisedeque, explicando a ordem concernente ao Ancião de Dias (…). 6 [ênfase nossa]

Em setembro de 1843, a investidura foi administradas pela primeira vez a mulheres. Desde então, homens e mulheres recebem exatamente as mesmas ordenanças templárias, de forma que as mesmas chaves do sacerdócio são também transmitidas às mulheres. Com a organização da Sociedade de Socorro, Joseph Smith pretendia preparar as mulheres para a recepção do poder divino – o sacerdócio – e o uso de seus “privilégios, bênçãos e dons”.

Joseph Smith afirmou que “[t]odo sacerdócio é Melquisedeque; mas há diferentes porções ou graus dele”. [7] Tal fonte de poder divino, para os primeiros mórmons, transcendia e era independente de ofícios. Como explicado por Joseph F. Smith, quando presidente da Igreja, em 1903, “todos os ofícios na Igreja são simplesmente apêndices do Sacerdócio de Melquisedeque” (ênfase nossa). [8] Dessa forma, mesmo sem ordenações a ofícios específicos durante a investidura – ainda que recebendo nela a promessa dos ofícios de rainha e sacerdotisa -, era um conhecimento comum entre os santos dos últimos dias que mulheres, assim como os homens, eram investidas de autoridade do sacerdócio através das cerimônias do templo.

Cerimônias templárias em Nauvoo

1842

15/03 - iniciação de Joseph Smith na maçonaria

17/03 - organização da Sociedade de Socorro

04/05 - primeira administração da investidura a homens

1843

16 e 17/05 - instruções sobre casamento celestial e progênie eterna (D&C 131)

28/05 - selamento de Joseph e Emma Smith

12/07 - revelação sobre casamento celestial (D&C 132)

27/08 - discurso sobre três ordens do sacerdócio

28/09 - primeira administração da investidura a mulheres; Joseph e Emma Smith recebem “plenitude do sacerdócio”

Referências

1. History of the Church 4:602.

2. http://josephsmithpapers.org/paperSummary/nauvoo-relief-society-minute-book

3. Ata da Sociedade de Socorro, 28 de abril de 1842

4. Bênção patriarcal dada por Hyrum Smith a Leonora Taylor, 28 de julho de 1843, Departamento Histórico da Igreja; citado por Quinn, “Mormon women have had the priesthood since 1843”, p. 366-367.

5. George A. Smith, Diário, 09 de janeiro de 1873.

6. Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, p. 231.

7. The Words of Joseph Smith, p. 59.

8. Conference Report, p. 87. Outubro de 1903. http://archive.org/stream/conferencereport1903sa/conferencereport742chur#page/86/mode/2up

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10 comentários sobre “A Sociedade de Socorro e o sacerdócio

  1. Tu comentaste o seguinte, “A prática de mulheres imporem as mãos sobre doentes persistiu durante todo o século XIX e início do XX”, e a pergunta que faço é a seguinte: Na administração de qual presidente esta prática terminou e por quê?

      • Larissa,

        não tenho agora como responder de forma mais completa sua excelente pergunta. Fico devendo um novo post a respeito! O que podemos afirmar é que foi um processo longo (mais de um século) e gradual.

        Eu especulo que a partir do assassinato de Joseph e Hyrum, as duas mais influentes mulheres da família Smith – Lucy e Emma – não seguiram a liderança de Brigham Young e isso talvez tenha sido uma semente para a desconfiança em relação a um sacerdócio feminino, ainda que Brigham Young não tenha realizado mudanças substanciais com relação ao assunto. [Emma havia sido a primeira mulher a receber a "plenitude do sacerdócio", ao lado de Joseph e presidia a Sociedade de Socorro; Lucy Mack Smith, mãe de Joseph e também integrante do Quórum dos Ungidos, era a "Mãe Smith" e via a restauração como a história da sua família].

        Joseph Smith iniciou o estabelecimento de uma família sacerdotal, patriarcal. A partir de Brigham Young e ainda mais depois de 1890, as chaves apostólicas toma precedência sobre as patriarcais (e, por extensão, matriarcais), de forma que o sacerdócio feminino, sem lugar na hierarquia liderada por apóstolos, foi caindo e sendo relativizado.

        Não creio que seja papel da igreja nos ensinar todos os fatos históricos. Mesmo quando estudamos “história da igreja” dentro da Igreja, o que estamos estudando são fatos que promovam a fé e não apontem para contradições entre passado e presente. Por outro lado, também acredito que todos se beneficiariam de uma história mais ampla e sincera narrada pela Igreja.

    • Daison,

      eu até agora nunca encontrei uma data definitiva, mas creio que entre as décadas de 1940 e 50 a prática já estava caíra em desuso. Não existe – até onde sei – uma proibição das mulheres imporem as mãos. Como afirmo no texto acima, mesmo à época da formação da Sociedade de Socorro, a prática atraiu desconfiança e impopularidade. Joseph Smith teve que reiterar em público que a prática era correta.

      Houve no início do séc. XX um intenso debate sobre quais mulheres poderiam dar bênçãos (com investidura ou não, se a bênção deveria ser selada ou conformada, etc. O que ajudou a manter a prática viva, em parte, era o costume de ungir e impôr as mãos sobre outras partes do corpo que não a cabeça, assim como a ablução e unção de doentes e também gestantes, (A prática atual, aliás, de ungir apenas a cabeça pode ter tido origem nas instruções dadas a missionário sud servindo no “campo”, já que teriam que ungir também pessoas do sexo oposto.)

      Abraço!

  2. Joseph Fielding Smith, em Answers to Gospel Questions, diz que é perfeitamente aceitável que uma mulher ponha as mãos sobre a cabeça de seus filhos e lhes dê uma benção, contanto que ela não a faça pela autoridade de nenhum sacerdócio. Então aí temos um exemplo de como a prática das mulheres darem bênçãos persistiu até 1957, mesmo que não tenha sido acompanhado pelo reconhecimento da posse de algum sacerdócio.

    • Muito obrigado pela referência, Carl. Você tem razão: a prática de imposição de mãos teve uma vida mais longa do que o conceito das mulheres receberem o sacerdócio na investidura.

      Em 1946, o mesmo Joseph Fielding Smith escreveu à presidência da Sociedade de Socorro afirmando que embora fosse permitido a mulheres, em certas circunstâncias e sob a direção do sacerdócio (leia-se homens), abençoar outras mulheres, seria mais correto chamar homens portadores do sacerdócio para administrar (Messages of the First Presidency, 4:314).

    • Esta é a referencia que eu buscava, pois li quando meu filho mais velho era bebe, depois não a achava mais. Seria possível algum link, mesmo que em inglês? Muito obrigada!

  3. A resposta para esta questão encontra-se no excelente artigo do Sunstone “A gift given, a gift taken”, onde mostra novas orientações da presidência da Igreja durante a 1a metade do século XX para que somente portadores do sacerdócio de Melquisedequede participassem das bênçãos e da imposição das mãos:

    https://www.sunstonemagazine.com/pdf/029-16-25.pdf

  4. Amigo A.T.T., minha mãe é pastora de uma certa religião em Brasília e ela orgulha-se por possuir a autoridade de Deus e até batiza! Voltando ao mormonismo, creio que não haveria problema algum as mulheres possuírem o sacerdócio, pois num futuro bem próximo tanto os homens quanto as mulheres serão sacerdotes e sacerdotisas do Deus Altíssimo, assim como ocorre no templo…ops, e essa prática realizada no templo é uma mera representação ou as mulheres tem o sacerdócio mesmo ? Achei que essa divisão de funções veio a calhar. Dizem o danadões das doutrinas “profundas” que há dois deveres básicos do sacerdócio que não são realizados hoje: criar mundos e gerar filhos espirituais. Mas, que lindo, hoje a mulher pode gerar um corpo físico! O homem só contribui de modo ínfimo. Hoje o homem tem o Sacerdócio para ajudar os outros. Se somos um numa só carne com nossas esposas, seria fácil aceitar que elas exercessem também. Porém, gosto do jeito que está: mulher parindo e ensinando no lar enquanto o homem “gerencia” tudo isso. No meu mundo, minhas filhas todas possuirão o meu poder. ;)

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