A Encantadora de Baleias

encantadora1No filme A Encantadora de Baleias, o velho líder de uma tribo maori busca desesperadamente seu sucessor. Sua neta Paikea quer aprender as tradições reservadas aos homens e é duramente rejeitada pelo avô. Mas a pureza e teimosia da menina se provam mais fortes do que a ortodoxia do chefe. É Paikea quem no final faz com que as antigas tradições tenham sentido, tornando real aquilo que era transmitido como mito. Ela recebe uma revelação. O avô, sem outra alternativa,  arrepende-se e reconhece a sua neta como a tão aguardada sucessora. A verdade triunfa. A ignorância é abandonada.

O filme me parece ser uma parábola sobre o sacerdócio. Permitam-me divagar.

O sacerdócio na Igreja sud é hoje pensado como algo exclusivamente masculino. Como se fosse um velho folclore, é perpetuado em rotinas, tratado em tom laudatório, mas pouco utilizado como algo real. Seus “portadores” pouco sabem sobre o que fazer com ele. Esse sacerdócio é supostamente regido por avôs, auxiliados por burocratas mais jovens. Afirmam solenemente a necessidade da hierarquia que representam e como a hierarquia é o canal de revelação, sendo “revelação” uma palavra bastante elástica para cobrir qualquer coisa.

encantadora3Nesse cenário, algumas mulheres se perguntam se o tal sacerdócio é para ser assim mesmo, com essa transmissão exclusivamente masculina. Algumas inclusive pedem que seja transmitido também a elas e que recebam ofícios, para que possam tomar parte nas rotinas e ter mais voz perante os avôs. Essas corajosas mulheres com sua causa justa, no entanto, terão mais cedo ou mais tarde que lidar com o fato de que a história está muito mal contada e os avôs não mais conhecem todas as lendas nem todos os rituais.

Se o sacerdócio é para ser dado por profecia e revelação, que cada homem e mulher busque saber se deve ser ordenado(a), quando e por quem, para talvez obter a coisa real, o poder divino, ao invés do folclore morto. Nas condições atuais de decadência espiritual e perda de dons, acredito, a ordenação na Igreja de mulheres a ofícios do sacerdócio teria a mesma relevância perante os céus do que a ordenação automática de um menino que completou X anos de idade. Mas, no final das contas, não tenho dúvida, cabe às mulheres determinar o que lhes cabe dentro da Igreja.

Na ausência de revelação, o povo se corrompe e quer que uma revelação saia do forno para que possa a corrupção ser menos corrupta e haver mais paz entre líderes e liderados, não importando o que os seres celestiais estejam dizendo.

Como o mormonismo é uma tradição religiosa recente, podemos às vezes traçar a origem de algumas histórias mal contadas. A ideia de um sacerdócio ao qual as mulheres não têm direito ou que herdam subjetivamente através do marido simplesmente não fica de pé após um estudo básico da história mórmon e das ordenanças do templo.

As mulheres sud foram ordenadas ao sacerdócio pela primeira vez em 1843, através da investidura e da segunda unção. E hoje seguem recebendo o sacerdócio na investidura, sem que alguém pare para pensar que deveriam agir de acordo com esse sacerdócio, o qual é independente de ofícios.

O conceito de ordenação ao sacerdócio através dessas ordenanças foi caindo em desuso até ser completamente esquecido pela imensa maioria de membros da Igreja, crente no folclore contada pelos caciques. A nova lenda já estava formulada, em que a Sociedade de Socorro surgiu para fazer colchas e é uma organização auxiliar do sacerdócio.

E se a nossa verdadeira história for recuperada e as mulheres passarem a exercer o sacerdócio de que foram investidas no templo?

E se através da segunda unção mais mulheres forem ordenadas aos ofícios de rainha e sacerdotisa?

E se pararmos de adorar a corporação para ser o corpo de Cristo, usando o sacerdócio para fazer o que Ele faria?

Fomos ludibriados todos, homens e mulheres, se acreditamos que o sacerdócio é exclusivamente masculino. E que serve para preencher relatórios, fazer entrevistas, controlar pessoas e sugar seu trabalho e recursos ou construir prédios ao deus Mamon. E que depende de uma sequência de ofícios.

Continuaremos ludibriados, se acreditarmos no remendo de um sacerdócio originalmente verdadeiro, mas quase irreconhecível depois de ser corrompido por tradições falsas. É preciso antes acabar com as tradições falsas sobre o sacerdócio.

encantadora2O mormonismo precisa hoje de uma encantadora de baleias, uma menina teimosa e pura que, embora ame o avô, não dá ouvidos à tolice dele. Precisa também daquele tipo de ancião que se arrepende, mesmo que forçado pelos fatos, e reconhece quem a neta verdadeiramente é. Mas ambos estão ausentes, ao que parece.

Todos estão doentes e recusando a cura. Tudo vai mal em Sião. Sião não prospera.

Ou talvez existam por aí encantadoras de baleias e outros discretos profetas e profetisas, longe dos holofotes, longe dos blogs e simplesmente fazendo o lhes é ensinado do alto.

Que Deus tenha piedade de nós.

8 comentários sobre “A Encantadora de Baleias

    • Caro irmão Gabriel Ricioli,

      O irmão Antônio Trevisan Teixeira, autor do artigo acima, é um membro da IJCSUD, assim como eu também sou e assim como você parece ser. Ele serviu numa missão de tempo integral e pelo pouco que conheço dele, posso dizer que o mesmo possui um conhecimento do evangelho de Jesus Cristo, da restauração do evangelho e das escrituras, que poucos possuem (eu aí me incluo). Portanto, as reflexões realizadas pelo Antônio, são acima de tudo, fruto do vasto conhecimento que o mesmo possui sobre as escrituras e sobre o evangelho. Ele realmente “estuda” as escrituras. A bela reflexão do querido irmão Antônio Trevisan é um reflexo da história da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. É lastimável que muitas das fontes sobre o início da Igreja (restauração por Joseph Smith) não estão disponíveis em português. Se houvessem publicações pela Igreja de tais fontes, nossa concepção de Sacerdócio mudaria radicalmente.

      • Eu tambem sou ex missionario meu amigo só que eu prefiro seguir ao profeta do que destoar dele e consequentemente do Salvador e levar os membros da igreja de Cristo ao engano.

    • Caro Ir. Gabriel Ricioli,

      Não entrando no mérito do texto ou significado em nenhum momento, mas apenas observando teu superficial comentário…

      Creio que quem precisa estudar mais as escrituras somos todos nós, pois pelo que te entendi, você acha que estudar as escrituras seria apenas aquilo que em geral acreditamos quando ainda somos ‘muito leigos’ na Igreja, ou seja, “basta ler que sentirei o Espírito”, nem preciso entender qualquer coisa disso tudo. Nisso também surgem as eternas e muitas vezes desonestas apologias e está feito o estrago no cérebro do crente.

      Ao meu ver, questionar o status quo de nossa crença não tem qualquer relação com ‘não apoiar o profeta’, pois dito isso eu seria muito imaturo de ainda estar numa organização onde este preside não o apoiando. Nesse caso eu levantaria a mão contra, faria discursos públicos ou secretos de reprovação, procuraria desviar os ‘crentes’, etc., e nada disso faço, muito pelo contrário, sei pelo Espírito que ele deve estar onde está e é responsável diante de Deus por tudo que faz ou endossa como Seu Profeta.

      O que precisamos sim é de mais honestidade uns com os outros, mesmo que em alguns casos uma certa maturidade das partes deva ser obtida antes.

  1. O propósito do dom da profecia é fazer correções de curso da direção da sociedade e da Igreja. Mesmo quando um profeta prediz o futuro o faz dentro dessa perspectiva de correção. Profeta nunca foi um cargo ou profissão. A propósito, belo texto profético.

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