Ordenanças do templo – parte 3

Vitral na Catedral de Saint-Julien de Mans, França

Vitral na Catedral de Saint-Julien de Mans, França

Simbolismo maçônico e o Ancião de Dias

Os rituais mórmons em Kirtland não teriam sido por si só suficientes para o desenvolvimento das cerimônias do templo em Nauvoo. Dois elementos ainda faltavam para formar a teologia e o ritual do templo: a posição de Adão e a maçonaria.

Muitas das revelações recebidas por Joseph Smith foram motivadas por algo que havia lhe chamado a atenção. Não foi diferente com os rituais maçônicos. O mormonismo surgiu em um contexto em que a maçonaria ainda era uma instituição relevante no acalorado debate político e religioso da época. A nova religião foi capaz de atrair a suas fileiras tanto maçons quanto antimaçons.

A denúncia de combinações secretas na narrativa do Livro de Mórmon – que tanto agradava aos mórmons de sentimentos antimaçônicos – não impediu que Joseph Smith viesse a acreditar na ideia de segredos antigos estavam sendo preservados pela maçonaria e que o segredo seria um elemento essencial para as inovações realizadas na década de 1840. De acordo com Benjamin F. Johnson, referindo-se a Joseph Smith:

Ele me disse que a Franco-Maçonaria, no presente, era as investiduras apóstatas, assim como a religião sectária era a religião apóstata. [1]

É fato inegável que Joseph Smith fez empréstimos do ritual maçônico para a investidura mórmon. Seria ingenuidade ou simplificação extrema, porém, considerá-la como uma mera cópia ou imitação.

Em sua celebrada biografia de Joseph Smith, o historiador Richard Bushman aponta as diferenças de objetivos nos rituais maçônicos e mórmons:

No difícil mundo do capitalismo emergente, as lojas [maçônicas] estabeleceram um universo alternativo de virtude e amizade contido em imagens e rituais antigos. Na superfície, o templo [mórmon] parece com o mundo fechado, fraternal das lojas. Mas o cerne espiritual da investidura de Nauvoo não era a ligação masculina. Em 1843, mulheres estavam sentadas nas salas de ordenanças e passando pelos rituais. Adão e Eva, um par homem-mulher, eram as figuras representativas, ao invés do herói maçônico Hiram Abiff. O objetivo da investidura não era fraternidade masculina, mas a exaltação de maridos e esposas. [2]

Diferentemente do ideal maçônico, na investidura os laços maiores não são construídos entre irmãos, mas entre homem e mulher, instigados a serem leais a Deus e cuja glória maior virá com sua posteridade. Enquanto a maçonaria tradicional exclui a mulher dos seus rituais, na investidura a mulher está presente e nenhuma promessa do templo mórmon será concretizada sem a união de ambos, homem e mulher. Enquanto a loja maçônica é inspirada no templo de Salomão, apresentando o drama do rei judeu e do herói Hiram Abiff, a investidura transporta os iniciados para o Jardim do Éden, onde são convidados a reencenarem os mesmos passos de Adão e Eva.

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Ancião de Dias, de William Blake

Gradativamente, Adão passou a ocupar um lugar mais proeminente no pensamento de Joseph Smith. Para ele, Adão era o Ancião de Dias – título atribuído tradicionalmente a Deus -, possuía as chaves do sacerdócio e a direção de todas as dispensações do evangelho, presidindo sobre todos os homens:

As chaves têm que ser trazidas dos céus sempre que o Evangelho é enviado; e quando são reveladas, são-no pela autoridade de Adão.

Ele (Adão) é pai da raça humana e preside os espíritos de todos os homens; e todos os que tiveram as chaves devem comparecer ante ele neste conselho (…). Adão entregará sua mordomia a Cristo, a qual lhe foi entregue e que se refere a possuir as chaves do universo, porém reterá sua posição como cabeça da família humana.

Esta é, pois, a natureza do Sacerdócio: cada homem tem a presidência de sua dispensação e um homem tem a presidência de todas elas, ou seja, Adão. [3]

A posição de Adão e Eva na teologia mórmon seria anida mais explorada com o estabelecimento da investidura e a formação do Quórum dos Ungidos, como veremos no próximo post desta série.

Adão e Eva, de Maarten van Heemskerck

Adão e Eva, de Maarten van Heemskerck

NOTAS

1. My Life’s Review, p. 96.

2. Joseph Smith: rough stone rolling. A cultural biography of Mormonism’s founder. Alfred A. Knopf. New Yorl, 2005. p. 451

3. Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, pp. 153, 165.

4. Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, p. 231. William Law e William Marks estavam no grupo, mas seus nomes foram retirados posteriormente do texto, após o assassinato de Joseph Smith.

9 comentários sobre “Ordenanças do templo – parte 3

  1. Antonio
    Para um profeta que recebeu uma nova escritura pelo poder de Deus, restaurou dois Sacerdócios por visita de seres angelicais, sem precisar de modelos apóstatas, é estranho Joseph ter que se unir a uma organização secreta para de lá buscar um modelo apóstata para restaurar um modelo puro saindo do processo normal que citei antes. A própria estória de Adão e Eva na cerimônia do templo relata a visita de mensageiros celestiais ao casal para ensinar sobre as ordenanças.

  2. Muito boa essa série, temos tão poucas informações disponíveis em lingua portuguesa sobre este assunto. Particularmente acho lindos os rituais do templo e saber suas origens, tornam o negócio mais interessante e inspirador.

  3. MATERIA NORMAL PQ A IGREJA JAMAIS ESCONDEU NDA DE NG E PESSOAS PODEM PESQUISAR TRANQUILAMENTE SEM MEDO DE SER BARRADA…ENFIM A IGREJA VERDADEIRA ESTA EDIFICADA SOBRE A ROCHA E N TEME NDA….

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