Moroni Torgan e a Igreja em Fortaleza

O Mormonismo no nordeste brasileiro teve início mais de 30 anos após a chegada dos primeiros missionários em nosso país. Os pioneiros desta parte do Brasil foram Milton e Irene Soares, que se batizaram no Recife em 1960. Seis anos depois, seria a vez de minha cidade ter seus primeiros conversos, com o batismo da família Cintra.

No início o crescimento foi lento, e a política de segregação racial não ajudava muito em uma região onde considerável parte dos moradores seria impedida de exercer plenamente a condição de membro.

A vinda de mórmons de outros lugares contribuiu para o fortalecimento do grupo local, com destaque para Clóvis Fittipaldi e Ralph L. Price, que foram presidentes do ramo no início dos anos setenta, e Orville Wayne Day Jr, que chegou com a família na segunda metade daquela década e foi chamado a presidir a primeira estaca da cidade em 1981, tendo como conselheiros Fernando José Duarte de Araujo e Antenor Silva jr.

O Ceará vinha passando por uma mudança em sua base econômica em que o desenvolvimento das atividades industriais fabris veio a proporcionar o surgimento e consolidação de alguns empresários. Essas mudanças econômicas refletiram nas estruturas políticas e ideológicas, possibilitando a um desses jovens empresários, Tasso Jereissati, ser eleito governador do estado em 1986.

Tasso se apresentava como o novo, e seu “Governo das Mudanças” pretendia ser aquele que iria fazer a ruptura com as “oligarquias dos coronéis”. Parte de suas ações de mudança estava relacionada a como trabalhar a segurança pública no estado. Para isso, Tasso escolheu uma cúpula dirigente de fora, buscando evitar a manutenção do antigo sistema em que os interesses dos “coronéis” eram defendidos pelos órgãos públicos. Renato Torrano foi colocado como secretário de segurança, porém meses depois seria forçado a sair do cargo.

Nessa época, um jovem delegado se tornava figura cativa nas televisões e jornais do estado. Sempre que ocorria a prisão de um traficante, apreensão de maconha ou cocaína lá estava ele, dando entrevista e posando para fotos, seu nome: Moroni Bing Torgan.

Assim como Torrano, Moroni era gaúcho, sem vínculo com possíveis “esquemas” locais. Rapaz alto, bonito, com boa desenvoltura diante das câmeras, logo caiu nas graças do “galeguim dos zóio azul” que o colocou como secretário de segurança do estado em 1988.

Moroni, cujas raízes mórmons remontam a década de trinta, nasceu em uma humilde família no Rio Grande do Sul em 1956. Sob a liderança de Saul Messias, o gaúcho serviu missão de tempo integral em São Paulo. Voltou para Porto Alegre, casou-se e continuou seus estudos na UFRGS. Foi aprovado em um concurso para delegado da Polícia Federal e veio trabalhar em Fortaleza, chegando aqui em 1983.

Naquele momento, a capital cearense estava prestes a ter sua segunda estaca. “Chegou um irmão do sul, veio trabalhar como delegado”, era o comentário que corria nas poucas congregações espalhadas pela cidade. A igreja no Ceará estava presente somente na Região Metropolitana de Fortaleza e em um pequeno grupo que se formava em Sobral, uma cidade no noroeste do estado.

A experiência de Moroni na igreja, aliada a sua estabilidade financeira, seu desejo de servir e carência local de portadores do sacerdócio fizeram com que automaticamente ele fosse colocado em posição de liderança. Foi bispo da Ala Aldeota e um ano depois chamado a presidir a Estaca Fortaleza Brasil.

Era presidente de estaca quando veio o convite para assumir a Secretaria de Segurança. Tínhamos um mórmon no gabinete do governador. Nas respectivas esferas, o que Ezra Taft Benson havia sido para Eisenhower, Moroni era para Tasso Jereissati. Os mórmons tinham um dos seus em destaque no estado.

No “Governo das Mudanças” existia toda uma campanha que visava acabar com o crime de pistolagem no Ceará. Esses crimes por encomenda eram vistos como uma evidência do não controle do estado, um sinal de atraso, algo do “tempo dos coronéis”. Ou seja, o combate a pistolagem simbolizava rompimento com um sistema falido, retrógrado e a instauração de uma nova ordem social.

A gestão de Moroni à frente da secretaria de segurança levou a prisão de vários matadores de aluguel e seus mandantes. Moroni muitas vezes ia pessoalmente até o acusado. Tudo isso deu uma grande visibilidade ao gaúcho, cuja pretensão política era notória. Tanto que, na eleição seguinte, o “caçador de pistoleiros” seria eleito deputado federal numa época em que outro “caçador” havia chegado ao posto de presidente da república. Assim, Moroni Bing Torgan tornava-se o primeiro mórmon a entrar para Câmara Federal.

Saindo dos livros e relatos dos mais velhos.

Dessa primeira eleição, não consigo me recordar, uma vez que não foi muito depois do meu desmame. As eleições posteriores, para vice-governador, e novamente para deputado tenho alguma lembrança. Os comícios eram animados, tinham humoristas, bandas de forró e brindes para atrair as pessoas. O número de Moroni para deputado era 4512. Levando em conta seu histórico de combate ao crime, ele vendia a ideia que seu número era esse porque era assim que ele andava: com uma “45” numa mão e uma “12” na outra. O “cabra” demonstrou ser bom de voto, ganhou todas as três eleições disputadas na década de noventa.

Em 2000, disputou a prefeitura de Fortaleza pela primeira vez. Já havia rompido com Tasso Jereissati e migrado para o PFL. O popular Juraci Magalhães tentava a reeleição, e desde cedo as pesquisas já apontavam para a vitória do prefeito. Além deles, havia mais dois candidatos de peso: Patrícia Saboya (a primeira das duas patrícias que foram casadas com Ciro Gomes) e Inácio Arruda.

Na igreja a expectativa era grande. Alusões ao mórmon candidato eram constantes. Sempre que se falava em benção patriarcal, comentavam que na benção do irmão Moroni havia uma promessa que ele seria um “político famoso em todo o Brasil”, e que essa promessa já se cumprira, uma vez que ele já era um atuante deputado federal.

O próprio Moroni, em época de campanha, visitava as alas e era convidado a subir ao púlpito e prestar seu testemunho após ser apresentado por algum líder local. “Irmãos, pensem bem antes de votar, temos a chance de eleger um prefeito que todos os dias pedirá ao Pai Celestial conselhos de como liderar esta cidade”, foi parte do discurso do meu bispo na sacramental. Lembro-me de ter perguntado a ele se aquilo não feria a neutralidade da igreja sobre o assunto. “Essas foram as exatas palavras que o presidente da área brasileira disse na conferência de outra estaca, também achei estranho, só repeti o que ouvi”, foi a resposta do bispo.

Houve um comício especial direcionado aos membros da igreja em um grande colégio da cidade. Ônibus foram enviados às estacas para conduzir as pessoas ao local do encontro. Levei um vizinho para essa reunião. Havia falado pra ele que, embora as pessoas fossem quase todas mórmons, não se tratava de uma reunião religiosa e a igreja não tinha nenhuma ligação com aquilo. Porém, uma pergunta feita a meu vizinho pela primeira moça que lhe apresentei deixava claro o que passava na mente daqueles jovens que estavam no ônibus: “é a primeira vez que você vai a uma atividade da igreja?”.

O ginásio da escola estava cheio. Compareceram membros de todas as estacas, eram oito na época. Vários eram os políticos e líderes da igreja no palanque. Moroni comentou da alegria de reunir naquele local seus irmãos da igreja e fez alguma comparação com os guerreiros de Helamã. Dos discursos recordo pouco, já que, a menos de um ano de completar dezesseis, minha preocupação maior era “preparar o terreno” com as “laureis” e “meninas-moças” para o ano seguinte, quando o namoro estaria liberado.

Depois dos discursos, houve uma festa, um “baile” como a gente chama na igreja. Já que o público era majoritariamente SUD ficou decidido que o evento terminaria antes de 23h30min, uma vez que o dia seguinte era domingo. O ônibus da minha estaca foi um dos primeiros a sair (para meu desgosto), mas não cedo o suficiente para evitar que eu visse alguns de meus correligionários dançando uma música na qual o cantor afirmava somente gostar de fazer “agachadinho, agachadinho, agachadinho…”.

Juraci Magalhães alcançaria a reeleição naquele pleito. O candidato do PFL ficaria em terceiro lugar, superando a ex-primeira-dama. Não era um mau resultado, já que Juraci e Inácio eram nomes mais fortes na cidade, enquanto o de Moroni ainda era bastante associado, no imaginário popular, a figura de Tasso Jereissati, cujo nicho eleitoral estava mais no interior do estado que em Fortaleza.

Dois anos depois, Moroni seria eleito pela terceira vez deputado federal.

No ano de 2004, a disputa para prefeito foi mais empolgante. O desgaste da “Era Juraci” havia colocado o sentimento de mudança nos eleitores da capital cearense. Mais uma vez tentavam Inácio Arruda e Moroni Torgan. Outros estreavam na disputa: Aloísio, candidato apoiado por Juraci Magalhães, e Luizianne Lins , que mesmo sem o apoio da direção nacional do seu partido, lançou candidatura pelo Partido dos Trabalhadores.

Desde o início, as pesquisas colocavam o mórmon na frente. As farpas trocadas entre Inácio, Moroni e Aloísio deixaram livre o caminho da candidata do PT, que contra as expectativas pulou da quarta para a segunda posição no primeiro turno.

Pouco tempo antes daquela agitação política, eu havia mudado de bairro, consequentemente de estaca e ala. Na primeira entrevista com meu novo bispo fui perguntado em quem iria votar. No Brasil o voto é secreto desde os anos trinta, mas como na igreja até sua vida sexual é indagada pela liderança, não estranhei muito aquela pergunta. Respondi que não havia decidido ainda. Ele começou a elogiar o Moroni e depreciar a candidata do PT, inclusive sobre a suposta orientação sexual dela. Lembrando que tudo isso depois de uma oração, no bispado e com a foto da Primeira Presidência e a pintura de Cristo de frente pra mim.

Eu estava no segundo ano do curso de odontologia da UFC . No campus era comum os colegas passarem com o adesivo de Luizianne. O discurso monotemático de Moroni sobre o combate a violência e o tom autoritário do candidato contribuía para que meus colegas o vissem como representante da extrema direita, um “xerifão” conservador.

Uma das propostas de Luizianne era incluir no currículo das escolas municipais um “conteúdo programático positivo sobre homossexualidade e os direitos humanos da população GLBT”. Os “marketeiros” de Moroni tentaram usar aquilo contra a candidata do PT. Como o eleitorado não era constituído apenas por “Bolsonaros” ou “Boydkpackers”, a investida do PFL foi entendida por muitos como um ato de homofobia.

Se por um lado o candidato perdia créditos com os gays; por outro, ganhava o apoio do deputado federal Almeida de Jesus, discípulo de Edir Macedo, e do deputado estadual Jaziel Pereira, ligado à Igreja Assembleia de Deus. O atual setenta de área se tornava, desse modo, o candidato dos evangélicos.

Os militantes do PT nao iriam deixar aquilo barato. Textos que visavam mostrar as diferenças entre as doutrinas da religião de Moroni e a crença evangélica começavam a circular pela cidade. Pelo menos em dois debates na tv, lembro-me da Luizianne mencionando algo sobre a política da igreja em relação aos negros.

O destemor da jovem petista, com seu discurso de inclusão, valorização da cultura local e sua visão progressista em relação à causa GLBT fazia com que a candidata tivesse uma grande penetração entre o eleitorado mais jovem.

Para as pessoas da igreja com quem eu tinha contato, Luizianne representava o mundo, a licenciosidade, a frouxidão moral. Em uma visão dualística do preto ou branco sem nuances, na igreja Moroni representava o bem; Luzianne, o mal. Na faculdade os papéis se invertiam. Certa vez um rapaz da minha turma afirmou ter entendido o porquê de eu ter um certo apreço pelo deputado: “fui a uma missa e o padre comentou que o Moroni pertencia a ‘seita’ dos mórmons, daí entendi porque você votou nele”.

Um grande “showmício gospel” foi realizado numa importante praça do centro da cidade. Uma cantora evangélica revelada no Raul Gil era atração musical daquele evento. A praça estava repleta de “filhos de Lutero”. Caminhando pelo local pude reconhecer alguns SUDs em grupos um pouco distantes, alguns curtindo o momento; outros, com um semblante de notório deboche. Afinal, uma “requebradinha” até o chão com a música do Xanddy não é muito aconselhado, mas até que vai. Agora, pular e dançar uma música que fala sobre Deus e Jesus era sacrilégio demais para muitos mórmons que lá estavam.

Eu, tendo sido criado dentro do Mormonismo, era alheio a todas aquelas músicas e danças evangélicas. Contudo estava animado naquele dia. Os hinos de movimento da primária me vieram à mente e, seduzido pelas belas “ovelhas de outros apriscos” que lá estavam, entrei no embalo.

O público conhecia a letra de cabeça, sabia a coreografia; e eu, nada. Ficava só dublando, fingindo saber a canção. Olhava para o lado e, mesmo que de maneira acanhada, tentava acompanhar as danças. Algumas eram fáceis, só levantar as mãos enquanto cantava “campeão, vencedor, Deus dá asas, faz teu vôo”. Outras, porém, eram mais complexas, estilo “Ragatanga”, “Macarena”… Lembro-me de uma cujo refrão era “debaixo do meu pé (três pisadinhas com o pé direito), debaixo do meu pé (mais três pisadinhas),… Satanás debaixo do meu pé (uma rodadinha).

Como se tratava de um comício em favor do candidato do PFL, creio que o “campeão” cantado pela Jamily se referia ao atual setenta de área, restando a candidata do PT o status de adversária (satanás no grego) aquela que deveria está “debaixo do meu pé”.

No palanque estavam vários pastores, políticos e alguns pastores-políticos. As orações eram bem fervorosas, era “glória a Deus” pra cá, em “nome de Jesus” pra lá, até mesmo manifestações de glossolalias ocorriam. Olhava para o Moroni, e ele com aquele jeito mórmon apenas abaixava a cabeça e fechava os olhos.

Os líderes religiosos eram bem eloquentes. Um deles mais empolgado chegou a profetizar que Fortaleza já estava “liberta“, em outras palavras que o candidato do PFL venceria no domingo. Infelizmente (ou felizmente, não sei), a profecia não se cumpriu e Luizianne Lins conquistou uma das vitórias mais emocionantes da história recente da cidade.

De lá pra cá, o mórmon perderia mais duas eleições. Inácio Arruda venceu o gaúcho na disputa para o senado em 2006, enquanto eu servia missão na terra do Moroni. Dois anos depois, novamente concorrendo a prefeito, foi derrotado pela candidata do PT logo no primeiro turno.

No ano seguinte, os jornais da cidade comentariam que o gaúcho estava abandonando temporariamente a política para servir uma missão religiosa em Portugal. Moroni saía do cenário político, e Romanna Remor, no fim de 2011, chamaria minha atenção ao se tornar deputada federal, sendo a primeira mulher SUD a ocupar o cargo.

Abril passado, assistindo à Conferência Geral, tomei conhecimento de que o presidente da Missão Lisboa havia sido chamado para o sétimo quórum dos setenta. Pensei ter aquilo marcado o fim da carreira política do gaúcho. Meses depois ficaria sabendo da confirmação de sua candidatura.

Hoje não moro mais em Fortaleza, assim como a maioria de vocês acompanho de longe a tentativa de Moroni, agora Elder Torgan, de ser o primeiro membro da igreja a se sentar na cadeira de prefeito em uma capital brasileira no ano em que outro mórmon tenta chegar ao posto de homem mais poderoso do mundo.

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26 respostas para Moroni Torgan e a Igreja em Fortaleza

  1. Pingback: Moroni Torgan and the Church in Fortaleza, Brazil (part 1) | Times & Seasons

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  3. WesleyLoureiro disse:

    Nas eleições de 2004, Moroni chegou perto de ser eleito, muitos disseram
    que se o Governador “Tasso” tivesse apoiado o candidato certamente ele teria ganho,
    Luiziane tinha mais visibilidade “a candidata da moda” fazia festas em seus comicios e se
    escondendo atrás da figura de Lula,ela acabou por vencer, três anos mais tarde é necessario um nome para o cargo de secretário de Segurança Pública do Ceara, Moroni era o nome mais cotado, só que mais uma vez a Luiziane estava em seu caminho, para o governador Cid Gomes (PSB) irmão de Ciro Gomes forte aliado do PT naquela época era mais viável desistir de Moroni para não romper com a prefeita. Quanto a neutralidade da igreja é falha, já que os membros partilham em comum que uma vez Moroni eleito a igreja possuirá mais destaque e status, mês passado foi anunciado em minha ala que haveria um comício de Moroni, um comício ainda conservador com figuras de diversas igrejas… “http://www.youtube.com/watch?v=M3zvC8x3vLQ” dentro das alas,institutos e estacas de fortaleza está aos poucos se formando uma especie de queremismo em proporções menores, concordando com o texto acima também estou surpreso com a candidatura de Moroni,após derrotas e um cargo de 70 daria ele conta da prefeitura e da igreja? estou ancioso para ver o que acontecerá com este hercules quasimodo as avessas.

  4. WesleySouza disse:

    ótimo texto!

    apenas fico imaginando a dificuldade de ser prefeito e 70 ao mesmo tempo, considero um fardo pesado…

    fico ancioso para ver o resultado dessas eleições.

    • Valdilene Moita Cavalcante ( Val ) disse:

      Oi Emanuel,
      Em primeiro lugar, quero parabenizar a você pelo fato do seu conhecimento ocorrido no cotidiano, que primou pela aplicação textual dos conteúdos apresentado, através de situações rotineiras que estimulou a pesquisa, a reflexão e a ação. Apresentou clareza, responsabilidade e demostrou um pouco de companheirismo diante de sua religião e das candidaturas solicitadas, relevou maior interesse pelos relacionados, fascinados pelo mundo político. Você tem ótima capacidade de interpretação.
      O que mais me chamou atenção, foi como a religião mormonismo apoiou a candidatura de Moroni e haviam grandes promessas que ele seria um político famoso e que essa promessa já se cumprira diante do exposto, ressalto que o interesse encontra-se aptos para liderar, produzir muito bem significados que estão pra vir.

      Boa Sorte!!

  5. Excelente!!!! Você escreve muito bem e mostra que conhece bem o assunto!!! Parabéns!!!

  6. Emanuel, adorei a voz e estilo que você demonstra no escrito! A mistura de política e religião neste contexto é fascinante–me fez lembrar do orgulho que eu sentia como missionário em Manaus ao ver os evangélicos usar seus púlpitos para pedir votos na eleição de 2002, pensando que “nós mórmons nunca faríamos uma coisa tão sem graça.” Agora estou fascinado por este caso que completamente contradiz o que eu pensava como um missionário ingénuo. Você sabe se a Romanna Remor recebeu o mesmo apoio da comunidade SUD?

    Espero que este não é o último post seu que vemos por aqui!

    • Emanuel Santana disse:

      Obrigado pelos comentários elogiosos, Rolf.

      Na realidade, diferente das igrejas evangélicas que você viu em Manaus, a indução ao voto em nossa igreja é muito sutil. Por exemplo, em algumas propagandas eleitorais na TV da última eleição, um popular líder da igreja aparecia falando ter “a plena convicção de que Moroni é o melhor para Fortaleza” (como cidadão, ele tem todo o direito ). Essa semana, conversando com uma moça, ela me disse que perguntaram a um presidente de estaca sobre a questão, e ele respondeu que a igreja é neutra sobre o assunto, “mas é melhor eleger um portador do sacerdócio que qualquer um outro”. Fico pensando, dos 10 candidatos a prefeito formos ter como critério ser “portador do sacerdócio” esse número vai ficar bastante reduzido.

      As pessoas sabem da política de neutralidade da igreja em eleições e fazem de tudo para que as coisas não fiquem tão escancaradas. Mesmo as famosas visitas feitas pelo Moroni nas estacas da cidade eram justificadas pelo fato de ele ser uma autoridade política (embora na última eleição ele estivesse sem mandato). Esse ano, o chamado de setenta sacramentará o comparecimento dele nas reuniões. Será apresentado não mais como deputado Moroni, mas como “Elder Torgan, setenta de área que preside esta reunião”.

      Você não vai ouvir do púlpito um pedido de voto. Aquele pedaço do discurso do bispo que citei é uma exceção, não uma regra; mas as pessoas vão comentar nos corredores da igreja: “olha, amanhã vai ter comício no bairro tal, vamos reunir o pessoal na sala da sociedade de socorro depois da sacramental pra gente combinar tudo direitinho”. Daí tá lá o bispo, presidente do quorum, líder das moças… e aquilo que seria tão somente um exercício de cidadania se confunde com uma atividade da igreja na cabeça de muitos membros.

      Quero deixar claro que tenho um grande apreço por Moroni e aqueles bispos que eu citei. Entendo a dificuldade da igreja local se manter neutra no assunto. Um leitor de outro estado pode está nesse momento criticando meus irmãos de Fortaleza , mas creio que se um amado líder da cidade de vocês estivesse na situação de Moroni, provavelmente as coisas não seriam muito diferentes.

      Quanto a Romanna Remor, ouvi falar dela já como deputada federal no final do ano passado, moro muito longe de Santa Catarina pra poder avaliar.

      • Muito interessante—este tipo de influência sutil é muito visível estes dias nos EUA, pois em qualquer capela (ou pelos menos nas capelas que eu frequentei nos últimos 6 anos, desde que fosse conhecimento público que Romney queria ser presidente) há gente na escola dominical, no corredor, e todo outro canto falando sobre Romney, sobre o direito que ele tem à revelação, sobre a diligência dele como bispo e presidente de estaca, e como seria bom ter um homem assim como presidente.

        Também, não pensei que você estivesse criticando os membros da igreja em Fortaleza por causa de suas ações—acho que é uma coisa humana fazer isso, e por isso fascinante, como a gente mistura nossas ligações sociais, mesmo quando a igreja nos ensine a fazer o contrário. São todos que fazem, de uma maneira ou outra—mesmo um membro do Setenta, Elder Zwick, foi pego usando a conta de email dele da igreja para solicitar doações para a campanha de Romney. Uma das coisas que o seu post faz é demonstrar como isso acontece em todo canto (mesmo que seja com detalhes culturais diferentes e fascinantes).

  7. Pingback: Moroni Torgan and the Church in Fortaleza, Brazil (part 3) | Times & Seasons

  8. Marcelo disse:

    Creio que a separação de Igreja x Estado, apesar de ser idealmente perfeita no campo institucional ela é quase impossível no campo pessoal. Isto porque cada um é uma soma de influências espirituais, políticas, culturais, familiares, etc. Vi claramente evangélicos na TV dizendo que não votariam em Romney nas primárias devido a sua religião, então não é de se estranhar que mórmons gostem de votar em mórmons, uma vez que o fator “identificação” ou “afinidade” com o candidato é forte. Obama recebe apoio de 90% do eleitorado negro nos USA, por que você acha que isto ocorre! Exatamente, o 1o presidente negro, o 1o presidente mórmon, o 1o prefeito mórmon, são títulos de grande “appeal” em suas comunidades.
    Seu artigo também fez-me lembrar de um episódio que aconteceu no banco ABN Amro quando trabalhava em São Paulo. Todos os andares do prédio tinham uma espécie de “lounge” onde as pessoas bebiam um cafezinho entre uma pausa e outra no trabalho. Neste “lounge” sempre estava disponível o jornalzinho do sindicato dos bancários, geralmente com informações úteis a todos. Porém durante o período eleitoral este jornalzinho tinha um viés claramente petista, e o espaço do banco acabava sendo usado para promoção política. Mandei um e-mail para a área de “compliance” do banco reclamando da situação e colei parte do manual de políticas internas do banco onde claramente proibia este tipo de manifestação (uso do espaço do banco para promoções de candidatos ou partidos políticos). Meu e-mail parecia simples, mas foi de uma repercussão muito grande, tanto que o gerente de “compliance” acabou sendo mandado embora do banco por ter deixado aquilo passar.
    Este tipo de “deslize” pode acontecer em vários lugares, e é bom estarmos atentos para controlar os excessos. Elder Zwick deveria ter usado seu e-mail pessoal para pedir doações à campanha Romney, mas como usou seu e-mail corporativo (lds.com), claramente a repercursão foi negativa.
    Por outro lado, há os excessos ao avesso. Meu irmão certa vez contou que estava no banheiro da capela da estaca conversando com um irmão, e lhe perguntou se já possuía candidato. O irmão disse que não e então ele tirou um “santinho” de um membro SUD que estava se candidatando a deputado federal por São Paulo. O irmão recusou o santinho e disse algo estranho como “desculpe irmão, mas prefiro manter íntegro meu sacerdócio!”, como se política fosse a coisa mais obscena do mundo.
    Confesso que num Brasil, onde o partido que sempre se arvorou como o “partido da ética” e hoje enfrenta o julgamento do Mensalão no STF, sempre tive afinidade para candidatos mórmons com um recomendação para o templo, porque pelo menos ele teve de responder 2 vezes para seu bispo e para seu presidente de Estaca que era “honesto em todos os seus negócios”, uma coisa rara de se ver no mundo político, onde o poder sempre corrompe o que dizia ser incorruptível.
    Além, é claro, dos aspectos práticos ao se ter SUD no poder. Nossa capela do Jabaquara ficou embargada 7 anos na prefeitura porque a Igreja se recusava a pagar a “caixinha” para liberação da construção, e o político que estava por trás deste embargo era exatamente um político famoso do bairro, que inclusive havia recebido o voto de vários membros da Ala Jabaquara.
    Espero que Moroni seja eleito prefeito de Fortaleza, para quem não sabe, a prefeitura ainda não liberou a construção do templo na cidade…

  9. Valdilene Moita Cavalcante ( Val ) disse:

    Preciso ler o próximo texto.
    Boa Sorte!

  10. Leudo Santos disse:

    Ola grande Manuel, muito bom o texto irmão…abço.

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